Impossível ir a Lisboa sem sentir que lhe pertenço. Ainda mais quando o destino são locais onde passei alguns anos da minha vida. Estranho porque vivo nesta pequenina terra há tantos anos quantos os que vivi em Lisboa. Estranho porque praticamente não tenho memórias de infância, poucas de adolescência, algumas de juventude...e depois, na fase adulta já aqui estava de armas e bagagens.Hoje, sentada no sofá confortável do consultório da oftalmologista dos M.M.s, quentinha com o ar condicionado que nos pôs coradinhos num dia frio de Janeiro, com um dos M.M.s enroscado em mim, olhava pela janela e quase me via lá em baixo a palmilhar os passeios que palmilhei durante onze anos de vida activa naquele local.
O cafézinho onde tomava pequeno almoço, às vezes almoço, e muitas vezes lanche. O cabeleireiro onde me dava ao luxo de fazer manicure semanalmente. O passeio por onde andava a pé até casa da minha Avó ou a caminho do Cais do Sodré quando não me apeteciam os apertos dos transportes públicos. O local onde dantes havia um belo mercado (Praça) e agora se amontoam mais Centros Comerciais.
Tudo isto vi da janela e mais me enrosquei no M.M. pequenino enrolando os caracóis louros nos meus dedos. Há tanto tempo...parece tão pouco tempo...
Depois quando a consulta acabou e saímos para o frio da cidade, o ar pareceu-me diferente deste meu ar bafejado pelo Senhor Mar que está mesmo ali em baixo. Depois enfrentei o trânsito da cidade e o stress dos seus condutores que parecem fazer gáudio na existência da buzina, o trânsito da A5...virei à direita e saí para a Marginal. Respirei fundo...o quentinho da minha casa aproximava-se emoldurado pela água que ao fim do dia estava prateada debaixo dum pôr de sol rosado.
Lisboa, a minha cidade. Onde nasci, fui menina, rapariga, mulher e Mãe, Filha e Neta. Onde pairam as memórias que fugiram da minha cabeça. Lisboa...é sempre bom revê-la...e saber que posso voltar ao local a que agora chamo "a minha terra".