Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

De quem é Lua...

...para quem é Sol

Aparição, Vergílio Ferreira

A
A r t e
da palavra

[...]Eu reconciliava-me pouco a pouco com ela. De novo se me erguia, fascinante, no seu corpo selado de luto, nas suas mãos agudas, de gestos oblíquos, no seu olhar ilícito e inocente. Sofia falava. Em momentos fulgurantes, pelo meio da noite, ela descobrir também a vertigem da vida, da sua pessoa, da gratuidade desse absurdo milagre, da interrogação para o amanhã "Eu já conhecia tudo". Ou talvez não tivesse descoberto verdadeiramente e só agora, ao aviso da minha palavra, tudo se lhe revelasse em violência, num bater descompassado do coração. Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã. A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos, com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até ao esgotamento. Este "eu" solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse "eu" e a sua descoberta, se o condenarmos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lha razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no seu dia-a-dia animal. Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuidade deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até enrouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita. Somos cães, ratos, escaravelhos com consciência? Que essa consciência esgote até às fezes a nossa condição de escaravelhos.[...]

Aparição, Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, 53ª edição, págªs 84 e 85

A minha imaginação não é fértil

Tenho pena. Gostava que as minhas mãos, quando tocam as letras deste portátil, fossem guiadas por uma imaginação daquelas que não pára. Que deita cá para fora ideias e palavras brilhantes, das que todos nós, leitores, gostamos de ler. Não, não tenho uma imaginação fértil e isso faz-me pena. O que sai das minhas mãos sai muito da minha cabeça, e o que sai da minha cabeça, vem directamente do coração. E toda a gente sabe que o coração não é o melhor conselheiro que se pode ter...para ele tudo é demasiado intenso!

Não sei o que fazer para treinar a imaginação e desligar o botão da cabeça que liga directamente ao coração e que me faz escrever de forma intempestiva, sem rascunho, sem editor de texto. Gostava de conseguir ter os meus cadernos repletos de histórias. Assim, quando a cabeça estivesse baralhada, só precisava de fazer um Copy Paste e saía o post do dia. Confesso que não tenho. Gosto muito de escrever à mão, adoro a minha letra cheia de reviravoltas, mas para escrever o que me vai na alma, o meu blog é o meu caderno.

Por um lado é bom. Para mim, pelo menos, que sempre desejei escrever para ser lida e que não gosto de escrever para as gavetas. Por outro lado tem a desvantagem do "rompante" (característica muito própria de mim própria).

As mãos escrevem e a cabeça manda publicar mensagem. A partir daí, estou no ar, sem rede nem guião. Não tenho medo das reacções de quem está desse lado. Escrever publicamente é assumir posições que nunca podem ser universais. Sorrio de contentamento quando descubro uma lista de comentários para publicar. Fico mais triste comigo quando um post não leva ninguém a escrever. Onde será que errei? Será que o que escrevi está uma verdadeira treta? Mas a verdadeira treta tem muitos adeptos...então?

A minha imaginação não é fértil, mas as letras dão-me prazer. Imenso prazer. E, por mim, e por elas, vou continuar a escrever!

Hoje desvio-me da rota. Deixo que uma mão invisível me guie e me leve. Onde pararei não sei, mas sei que é deste momento que preciso.

Processamento Doloroso

Eu e a minha Máquina, Julho 2007, Ocean Spirit

Há dias assim enevoados, chuvosos e húmidos. Abrimos os olhos e deparamo-nos com eles. Fechamos os olhos novamente. Pensamos...

Também a cabeça, de vez em quando, acorda assim. Enevoada. A bombar informação que dói processar.

What Planet Are You From?



You Are From the Moon


You can vibe with the steady rhythms of the Moon.

You're in touch with your emotions and intuition.

You possess a great, unmatched imagination - and an infinite memory.

Ultra-sensitive, you feel at home anywhere (or with anyone).

A total healer, you light the way in the dark for many.

What Planet Are You From?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Forma de estar

Há no meu dia-a-dia hábitos que são próprios de outros tempos, que por vezes não se coadunam com a imagem que as pessoas têm de mim. Confesso que alguns deles poderiam ser substituídos por uma forma mais prática e, talvez, actual de estar na vida, mas fazem parte da educação que tive, do meu crescimento, e não consigo [nem quero] abandoná-los...


Ritual de pôr a mesa - a mesa é posta como "manda a lei". Tudo certinho e alinhadinho, com guardanapos de pano devidamente identificados por argolas de guardanapo;

Ritual das refeições - não há televisão ligada à hora das refeições, não se come à mão;

Ritual de secar roupa - já tive uma máquina de secar, mas não conseguia abdicar do cheirinho que a roupa tem quando é estendida lá fora e seca ao ar! despachei a máquina de secar [assim sempre tenho material para postar uma estupidez quando a roupa passa de molhada a encharcada!];

Ritual de engomar - toda a roupa é engomada a preceito. Camisas sem vincos, lençóis esticados e vincados de uma ponta a outra;

Ritual de fazer camas - uma por uma, todas as manhãs, roupa puxada para trás, quartos arejados, lençóis desentalados e abanados, lençóis entalados, camas esticadas que esperam pela noite;


...
pode parecer estranho, mas há coisas das quais não abdico!

Estado de Paz



Surpreendo-me com a calma que me invade. Como a bonança que chega depois da tempestade no mar e que deixa tudo no mais profundo silêncio. Busco razões e explicações. Busco em mim a turbulência do meu ser e nada encontro.

Cor quente, à deriva no pensamento


Eu e a minha Máquina, FILArte, Novembro 2008
Vermelha,
A paixão.
Vermelho,
O sangue
O calor
O conforto.

Cansaço do branco. das paredes. do chão. do tecto. Cansaço do vazio. dos olhos. dos não sorrisos. das palavras que ficam suspensas.

Em pé, levanto-me e pinto. quero tudo vermelho. quero sentir que paredes, chão e tecto me vão envolver, me vão levar para fora das paredes brancas. onde tenho medo de ficar. parado, de olhar parado num ponto que não distingo porque só vejo a brancura sem fim, mudo, sem chão nem tecto.

E se o vermelho me sufocar? Vou rir, gargalhar, ensurdecer com o meu riso, porque eu sou alegre sem o branco que me prende...

Pensamento Estúpido # 4

O S. Pedro não gosta dos meus estendais de roupa...

CQC em S. Pedro do Estoril

Gosto deste programa. Acho piada a esta equipa.

No episódio da passada semana tive a agradável surpresa de ver a minha terra pequenina a ser falada no CQC. A passagem de nível é, na realidade, um problema que tem que ter resolução. Foi bom ver o Presidente da Câmara a afirmar que a resolução está para breve. Considero-o uma pessoa séria e consciente das necessidades do Concelho, por isso, vamos ficar à espera!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Se os olhos não virem o coração não sente...

Esta é a frase que serve de lema a curtos depoimentos de jornalistas da SIC Notícias sobre as reportagens ou as notícias em que estiveram directamente envolvidos.

Todos os que ouvi me têm tocado muito. Porque era esta a profissão que eu queria ter, porque todos eles falam na emoção que sentiram, em cada um dos casos que apontam como ter sido "o caso".

Há um deles que fala de uma reportagem que fez sobre uma criança/rapariga de 14 anos que era abusada sexualmente e que diz que, de repente, a jovem confessa ser o próprio Pai o violador/abusador. Deve ser brutal. Estar a entrevistar alguém que, quase inconscientemente, acusa uma pessoa tão próxima dum crime tão horrendo. E deve ser preciso ter uma grande capacidade de isenção para continuar.

Todos os dias. Sem perder a fé no Homem.

Afirmações...

Muita pena.
Que a Igreja não cresça ao mesmo ritmo que cresce o Mundo.
Que não consiga acompanhar o desenvolvimento de mentalidades.
Que não veja que não é este o caminho certo para juntar as pessoas.
Que não é assim que se põe em prática a frase que apregoa segundo a qual "todos somos Irmãos".
Não compreendo...

PS - vale a pena ler também
aqui e aqui e aqui

Há sempre uma primeira vez para tudo...


hoje foi a primeira vez que fui pôr os meus Filhos à Escola em pijama! Nem queria acreditar. Eu, super-vaidosa, que tenho sempre de sair de casa logo de manhã já com todos os meus acessórios e elementos de toillete...tudo a condizer com tudo...hoje acordei tão tarde que só tive tempo de andar a correr atrás dos pequenos para se despacharem, dar pequenos almoços, enfiar o casaco e as botas e voar pelas escolas.
Enfim...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Rosa, ou Eu e os Outros

Não sei quando fiquei assim ou se sempre fui assim ... lembro-me, quando fui Mãe pela segunda vez, de estar a conversar com uma colega de trabalho sobre a facilidade de comoção após sermos Mães.

O que sei, de certeza, é que há coisas, situações, que me deixam sempre num mar de lágrimas. Tudo o que envolva crianças é certo e sabido que dá direito a muito funganço e esfregar de olhos.
Foi o que me aconteceu quando vi na SICNotícias o documentário Ainda há Pastores?. Lembro-me perfeitamente. Foi na altura do Natal, entre o Natal e o Fim de Ano. Estavamos na cozinha a tratar do jantar. Eu já tinha visto o anúncio ao documentário e estava à espera de o ver. E vi. E chorei perdidamente.
Chorei por aquela Menina.

De seu nome Rosa. Sem poder ir à Escola. A viver no meio da serra, em Folgosinho. Longe de tudo e de todos. A trabalhar "no duro". Com a cabeça cheia de sonhos que não sabia se iria poder concretizar algum dia. Chorei e agarrei-me ao computador. Internet fora, entrei em contacto com o realizador do documentário. Falámos ao telefone. Soube o que poderia fazer por ela, o que poderia fazer-lhe chegar. Fiz uma campanha pelos mails dos amigos/as. Reuni roupa, calçado, livros, revistas, cadernos, canetas e lápis, produtos de higiene. Coisas básicas para quem, como nós, vive no meio da civilização. Coisas maravilhosas para quem, como ela, vive no meio de uma serra gelada e deserta tendo por única companhia os animais que pasta.

Enchi sacos que entreguei na SIC. Que lhe chegaram pelas mãos do mesmo homem que a filmou e a mostrou ao Mundo. E passei a receber sms's dela. Não só a agradecer, mas também a dar notícias, a querer saber notícias, às vezes só para dizer olá. E quando os sms's chegam, os meus braços e as minhas pernas arrepiam-se e os meus olhos insistem em produzir lágrimas.

Estou a contar isto porque acabei de receber um sms da Rosa - "Olá, é a Rosa. Da Serra!"
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