Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

20 Anos de Liberdade (depois de 27 de reclusão)


"Liberdade não é meramente tirar as correntes de alguém,
mas sim viver de uma forma que respeita e aumenta a liberdade dos outros."

Expedito


Estava eu a dobrar meias e restantes peças de roupa interior quando do meio da confusão vejo aparecer a cor do fato de banho e da touca de natação do Mateus. Oh não... Quinta feira é dia de ir nadar e se o equipamento estava em casa ele não podia ter feito a aula. A natação que a CMC proporciona às crianças das escolas públicas do Concelho é um dos momentos altos da semana do nº 4. Saí para o ir buscar a preparar-me psicologicamente para a telha que ia ter de enfrentar quando ele saísse da escola. Surpreendentemente, vinha bem disposto. As mochilas ao ombro, o casaco na mão, feliz e contente. "Então? Como correu a natação? Correu bem, mas..." OK. Aí vinha a telha para a qual eu me preparara. "...tive de ir pedir um fato de banho e uma touca à recepção da piscina...esqueceste-te de as pôr na mochila!" Fiz grande festa, disse-lhe que ele era um homem. Tinha conseguido resolver sozinho o problema e tinha feito natação. Conseguiu resistir à vontade de chorar um bocadinho. E acho que ficou orgulhoso com o elogio. Disse-lhe que ele era muito expedito. E expliquei-lhe o que queria dizer esta palavra esquisita.

Quem me Dera...


...saber escrever de olhos fechados. Associar ideias e juntar palavras formando frases gramaticalmente perfeitas e sinteticamente impolutas. De caneta de tinta permanente na mão direita e mata-borrão na mão esquerda, cobrindo folhas, umas atrás das outras, com a minha letra invejavelmente certa e trabalhada. Quem me dera ter muitos cadernos cheios desta letra, onde em dias de menor inspiração ou de fraca capacidade de observação iria buscar matéria para dizer ao mundo que a minha produção é inesgotável. Quem me dera conseguir abstrair-me das tarefas comezinhas do dia-a-dia, ser uma verdadeira escritora, genial. Conseguiria não ver camas por fazer, pó por cima dos móveis, cotão a formar-se nos cantos, roupa a atafulhar o cesto da roupa suja e outra a atafulhar estendais e o móvel da roupa para engomar. Ah...como eu seria feliz! Se eu soubesse escrever de olhos fechados e de olhos fechados alienar-me das tarefas comezinhas da vida, seleccionaria em cada dia um "spot" inspirador, porque há tantos no sítio onde vivo. De frente para o mar ou em observação dos que passam para lá e para cá em ruas que palmilham nos seus afazeres diários, eu iria encontrar palavras de ponto de partida para escritas infindáveis. Eu gosto de me imaginar escriba. Vejo-me nessa tarefa árdua de trazer para outros olhos o que os meus olhos interiores rebuscam em gavetas que só eu sei abrir. Gavetas que por vezes estão perras, mas quando se deixam correr soltam odores de sacos de alfazema que as perfumam e enxotam para longe os maus olhados que gavetas fechadas podem atrair. Neste momento escrevo sentada numa cadeira, na cozinha, tendo como secretária uma tábua de pão encaixada dentro de uma gaveta aberta. Eu posso escrever em qualquer lado. Qualquer lado é bom para soltar ideias e palavras ao mundo. As palavras nem sempre são as melhores, mas são as minhas e, tal como os filhos, amo-as "no matter what".

Afeições e Dores de Coração

Eu e a minha Máquina,
Sombras dos Narcisos na parede
Fevereiro 2010

Estranha característica esta do ser humano. A afeição. A capacidade que temos de desenvolver sentimentos de amizade, de carinho, de afecto, por pessoas, coisas e lugares que por qualquer motivo desenvolvem um papel especial nas nossas vidas, sendo que existem pessoas mais dadas a estes sentimentos afectuosos do que outras.

Ao estacionar à porta da tabacaria perto de casa onde compro o jornal, vou aos correios, compro qualquer material escolar numa aflição, dei com uma série de papéis colados na montra "Liquidação Total". Ainda dentro do carro e já tinha o coração apertado. O que é que se estava a passar ali? Será que uma das senhoras está doente? Será que tudo não passa de uma manobra publicitária para atrair clientes em tempo de crise? Deixei o carro, entrei na loja. Na verdade não ia comprar nada em particular, apenas ver a lista dos livros que começam hoje a sair com o Público (20 Livros que Mudaram o Mundo), mas disparei de rompante um "O que é que se está a passar aqui?". A resposta não se fez esperar, saíu pronta a confirmar o que eu não queria ouvir "Vamos fechar. Já são muitos anos neste horário, muito cansaço, a idade não perdoa." Fiquei pregada ao chão e ao balcão. Como se fosse perder alguém muito querido. Que estupidez! ... "Mas não fique assim...só vamos fechar a porta e entregar a loja em Abril." Que me importa. Estava habituada a ir ali e ver aquelas caras. E a partir de Abril? Mais uma porta de loja fechada naquela correnteza de prédios. Mais uma tabuleta de uma qualquer agência imobiliária com um Vende-se ou Aluga-se ou Trespassa-se. Não!

Tem razão o meu filho Manel quando diz "Vês Mãe, porque é que somos tão piegas? Porque saímos a ti!..."

Escrita no Feminino

Descoberto e Trazido

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Grilo Falante

Chegada do supermercado próximo de casa, venho com a cabeça a trabalhar após ter assistido a um jovem ter sido recolhido por uma ambulância, em coma alcoólico. Longe de mim a ideia de aproveitar este meu espaço para ser uma espécie de "grilo falante" a espicaçar as consciências dos hipotéticos Pais/Mães que me leiam. Se para qui trago este tema é porque começam a ser demasiado frequentes as histórias que envolvem jovens, muito jovens, a cair em comas alcoólicos. Não só em noites de saída mas também à luz do dia, à porta dos estabelecimentos de ensino onde estudam.
Com supermercados à porta das escolas e a ideia pré-concebida de que a comida dos refeitórios não presta, são muitos os que optam por não comer na escola. A lei que permite que se vendam bebidas alcoólicas a maiores de dezasseis anos abre portas para o consumo sem vigilância, porque ao estabelecimento comercial basta-lhe confirmar a idade do comprador. Mais do que isso não pode fazer.
Os Pais/Mães trabalham. Saem cedo, deixam os Filhos na Escola, voltam tarde. Por muitos conselhos que se deêm, por muitas regras que se façam cumprir, o comportamento humano altera consoante se está sozinho ou em grupo e os jovens são um exemplo flagrante do que pode fazer a atitude de grupo. Não querer ser excluído ou considerado "betinho" pelos outros é muitas vezes o rastilho que acaba por incendiar comportamentos.
As dependências são, todas elas, preocupantes e deveriam ser tratadas, porque uma dependência é uma doença que pode começar com um gesto tão simples como o beber da primeira cerveja, do primeiro café, o fumar do primeiro cigarro ou do primeiro charro.
Para esta, tal como para a maior parte das questões que se nos apresentam actualmente como Pais/Educadores, não tenho nenhuma solução ou fórmula mágica de resolução, mas sei que (na medida das possibilidades de cada um) nos deveríamos envolver mais e mais com as escolas onde temos os nossos filhos a estudar. Sermos presença frequente em reuniões convocadas pela Escola e em reuniões pedidas por nós próprios aos Dt's. Sermos abertos na relação que vamos criando com os nossos adolescentes e jovens. Para que, de repente, não sejamos surpreendidos por factos que nunca sequer imaginámos.

Gestora (sem canudo, mas muita experiência!)


Sem nunca ter estudado para tal, considero-me uma gestora. De stocks, de economato, de recursos humanos. São duras todas as áreas que giro, porque me obrigam a uma atenção e disciplina que nem sempre me apetece ter, mas este é o meu trabalho, a minha profissão, a minha responsabilidade, e eu sou uma pessoa cheia de brio profissional. Não gosto de fazer mal feito, não gosto que apontem o dedo às coisas que faço. Gosto de elogios e dispenso as recompensas. Uma frase, um sorriso, uma carícia chegam perfeitamente para me compensar. De todas elas, a que mais me dá água pela barba é a gestão de recursos humanos. Sei o quanto é difícil gerir pessoas, porque cada pessoa é um Mundo de questões, de sentimentos, de reacções diferentes a uma mesma situação do dia a dia. Os meus Meninos não são excepção e apesar do código genético que os une e da educação que se quer igual, vejo-me muitas vezes a braços com atitudes completamente dispensáveis segundo o meu código de conduta e segundo as regras que lhes determino como regra de conduta deles, dentro e fora de casa.
Tarefa desgastante esta. Sempre com atenção. As atitudes a solo e em grupo. A postura à mesa. A forma de se dirigir às pessoas mais velhas.
Agora tenho para resolver mais uma questão de atitudes. Entre um deles e um Professor. Por norma defendo os Professores, mas este caso em concreto está a deixar-me um pouco incomodada.
Como é que um Professor de Educação Física pretende avaliar um Aluno se o põe de castigo, sem fazer aula, sistematicamente? Estará a arranjar forma de lhe dar negativa? E porquê se o Aluno em causa é um excelente desportista e apaixonado pela Educação Física? Não haverá outras formas de castigar ou corrigir atitudes menos próprias?
Gerir pessoas não é fácil.

Presente

Presente de uma AMIGA

Durante o dia são poucos momentos que tenho disponíveis para fazer outras coisas que não as que a gestão de uma casa e de uma Família exigem de mim, no entanto a cabeça não pára. Pensa em tudo e em todos. Os que estão longe, os que estão perto. Os que são Amigos e os que se dizem ser. E enquanto penso em tudo isto concluo que na categoria de Amigos se encaixam muito poucos.

Tempo para os Outros

08:45. A caminho da escola do Mateus. Chuva a potes. Estrada cheia de água, perigosamente próxima do passeio onde alguns (poucos) peões circulam. Uma Mãe, uma criança ao colo, uma mochila às costas, um chapéu de chuva na mão que não segura a criança. Uma fila de carros atrás de mim. Quatro piscas. Mão no botão que abre o vidro do pendura. Quer boleia? Para onde vai? O destino é próximo do meu. Mão no botão que fecha o vidro do pendura. Mãe e Filha entram no meu carro. Parado com uma fila de outros carros atrás. Quatro piscas ligados. Criança no banco de trás. O cinto posto. Retomamos a marcha. Ninguém buzinou. Uma Mãe e uma Filha pequenina entregues no destino. Mais secas!

FUGA

Fuga,
Kandinsky, 1914,
óleo sobre tela

"Em amor a única vitória é a fuga"
Napoleão Bonaparte

Ainda as Mãos...e outros Sentidos!

Posted by PicasaA minha Máquina noutras Mãos
Eu, a beber!
Outubro 2009

Este post surgiu-me após ter lido e comentado um post da Gigi a propósito de gostos e paladares, que se educam.

Não me consigo lembrar com que idade tive autorização para beber alcool. Sei que as minhas raízes familiares estão ligadas a terras de bom vinho e como tal sou uma bebedora controlada mas apaixonada pelo que bebo. [A minha Avó dizia que eu era "filha da cepa" (1. Pé de videira.).] As minhas bebidas preferidas, dentro da categoria alcool, eram a cerveja, o vinho branco e a amarguinha.

O tempo foi passando e o vinho branco começou a fazer-me mal. Deixava-me com azia e indisposta. Até aí sempre tinha sido anti vinho tinto, mas tive que dar a mão à palmatória e experimentá-lo, em alternativa ao branco. Aos poucos fui percebendo aquilo que um bom apreciador/conhecedor de vinhos sabe de trás para a frente - não há nada como um bom vinho vermelho escuro! Aquele que deixa a marca no vidro interior do copo quando, de copo largo e de pé, na mão, o inclinamos e rodamos. A cor vermelha escura que faz lembrar o sangue. A paixão. A espessura que se sente quando nos toca o interior da boca e aí o deixamos ficar durante um pouco para o saborearmos. O sabor. Rendi-me ao vinho tinto. Não o bebo diariamente, mas é o meu eleito sempre que a ocasião o pede.

Sim Gigi. O paladar educa-se!

Deu-me para isto # [3]

Deolinda

Mãos

A minha Máquina noutras Mãos
A minha Mão numa Festa de Anos
Junho 2007
Uso-as para escrever
Uso-as para segurar os livros que leio
Uso-as para trabalhar
Uso-as para levar pela mãos os Filhos
Uso-as para carregar os sacos das compras
Uso-as para acariciar
Uso-as para dar palmadas (que sacodem moscas!)
Uso-as para conduzir
Uso-as para dizer Adeus
Uso-as para bater palmas
Uso-as e Abuso-as
As minhas Mãos

onde a aliança de casamento ainda é a original. a que entrou no meu dedo anelar aos 22 anos e não voltou a sair. onde os dedos se foram deformando à conta de tanto trabalho manual e pesado. onde estão escritas todas as linhas da vida. do amor.

Para quem as souber Ler

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Eu e a minha Máquina,
Agosto 2008
Alentejo

Inventa um segredo qualquer e conta-mo. Devagar para que eu possa reter na minha memória todas as palavras que só a mim irei contar. Em voz baixa, porque é em voz baixa que se devem contar os segredos. Sim, pode ser aqui, perto deste curso de água que depressa se diluirá no mar imenso. O mar será nosso cúmplice, engolirá as palavras levando-as bem para o fundo, para perto de estrelas, algas e rochas, onde ninguém as encontrará. Conta-me um segredo. Enroscamo-nos como algas que se enleiam umas nas outras quando o mar revolto as empurra para a praia. Sussuraremos aos ouvidos mutuamente. A tua pele na minha e os cheiros a misturarem-se. Perderemos a identidade individual e construiremos a identidade comum. Não me abandones. Não te assustes com este meu desejo de fusão. Deixar-te-ei partir sempre que o teu ar se estiver a evaporar, mas volta sempre. Inventa outro segredo e volta. Em cada partida, em cada regresso, haverá sempre mais um pouco de Nós. Seremos uma construção nunca acabada. Precisaremos sempre da energia que geramos quando nos tocamos ao de leve, quando nos olhamos bem no fundo de cada olhar. Nunca nos cansaremos e dos nossos segredos faremos muitas palavras, muitas linhas, uma história. Com pessoas e com o Mar.

O Leitor

Muito mais do que um simples livro fininho e de leitura fácil.

Muito mais do que mais um filme sobre as marcas da II Guerra Mundial nas pessoas que por ela passaram.

Muito mais do que mais um filme contador de um romance.

Quando as palavras são o elemento de união de duas pessoas. Quando o desconhecimento das palavras constitui o segredo máximo de uma vida. Que se perde.

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