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A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Grande Écran


Daqui
Leva-me pela mão. Como se eu fosse outra vez pequenina.
Compra-me um chocolate regina  com sabor de ananás e leva-me pela mão. Não quero ir de carro. Quero ir a pé, como dantes. Passeio fora. Até ao cinema. Quero outra vez um bilhete de cinema e não um ticket de papel térmico. Quero sentar-me e ficar em silêncio presa às imagens até que chegue o som que nos dirá que chegou o intervalo. Quero ir ao bar e beber um café de saco. Conversar sobre tudo e nada que nos enche de intimidade. Quero que me digas que me fica bem o vestido que escolhi para esta saída especial. Quero que o filme acabe num final feliz. Levas-me ao cinema?

Desejos [de Natal]


Daqui
Livraria Ferin, Rua Nova do Almada
Espreito-os cá de fora.
Causam-me desejo. Um desejo tão forte que mal controlo a emoção sentida ao pensá-los tão perto de mim. São centenas, milhares deles. À minha disposição. Alinhados, pacíficos, anseando por atenção e ternura.
O vidro embacia com o vapor causado pela minha respiração. O frio é cortante e sinto-o a atravessar-me a roupa, a gelar-me os ossos, a paralisar-me os movimentos. Tenho as mãos enfiadas nas algibeiras do casaco que não consegue parar o meu tiritar. Tenho o nariz colado ao vidro. Vejo-me no reflexo e, simultaneamente, deixo de me ver quando a névoa da respiração cobre tudo e encobre o que lá dentro repousa. No quentinho de um ar condicionado, na temperatura ideal.
Hesito entre empurrar a porta e passar a fazer parte do que observo e continuar cá fora, espectador atento da calma e da serenidade que só prateleiras inteiras cheias de livros me conseguem transmitir. Se eu entrar, a serenidade será violada. O meu desejo far-se-à notar e todo este mundo que observo, embaciado, se transformará. Eu, pessoa, sou capaz de alterar o ambiente em que entro. O meu desejo por todas as letras é demasiado intenso. Acelera-me a respiração...
...o pensamento vagueia, adivinha cada uma das histórias que as prateleiras abrigam. Não são histórias de amores felizes, essas não me agradam em nada. São histórias densas e complexas, com palavras estranhas que me obrigam a um outro livro por perto para decifar aquele que escolhi para ler. São histórias onde os amores são real e cruelmente infelizes, atribulados, recheados de segredos que não se dizem.
Já não me lembro do frio e por isso decido não passar da porta para dentro. Estou adormecido ali na soleira da porta. É Natal e não quero sair dali. O que me espera não me faz correr, prende-me ao chão, à calçada, maravilhosa e fria. No vidro embaciado que me hipnotiza o olhar e me ata pés e mãos, surge outro rosto que pelas costas se aproxima de mim. Encosta o corpo ao meu. Pousa a cabeça no meu ombro sussurando-me ao ouvido o meu nome, P e d r o. As cinco letras ditas assim, baixas e roucas, quentes no frio da noite, com os corpos chegados um ao outro, soam-me, ressoam-me no cérebro. O meu nome naquela voz, que conheço, que me faz tremer as pernas. Viro-me. Os meus braços cruzam-lhe o corpo que se me oferece tão simplesmente. E o desejo que ainda há pouco me estremecia o corpo ao olhar os livros, volta. Quente, forte, sufocante. Passo-lhe as mãos no cabelo, aliso-lhe. Desenho-lhe com os dedos a curva das sobrancelhas, o recorte dos lábios. Os olhos fechados, o corpo abandonado ao meu. Beijo-a. Abraço-a como se a quisesse proteger. Abrigo-a do frio em mim. Sinto-a.
Afinal é Natal...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Jóia

Daqui
O coração fechou-se. para obras.
Disse que precisava de reflectir, que os corações também reflectem e quando o fazem precisam de estar fechados ao mundo.
O coração sente-se um pouco cansado e não sabe se se recorda de qual é a sensação de amar. a sensação que a ele está sempre ligada e que ele não encontra, faz tempo.
O coração está com vontade de bater forte, de fazer subir o sangue à face, de fazer descer as tremuras às pernas. mas não se lembra como se fazem estes truques.
O coração pensa, de tempos a tempos, que já não tem idade para estes sentires. mas rapidamente enxota os pensamentos e volta ao princípio.
O coração fechou-se. para obras. mas quer reabrir rapidamente. transformar-se em jóia rara no peito de alguém que sorrirá apenas porque sim.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Estrela da Tarde [num rádio sem válvulas]

Daqui
Na minha casa há um rádio antigo. Já não toca há muito. Tem um problema de saúde próprio de rádios antigos, um problema de válvulas. Lembro-me quando o meu avô trocava válvulas da televisão a preto e branco. Agora já não tenho avô nem televisão a preto e branco. Tenho este rádio, que não toca e que não serve para muito mais do que para enfeitar a pedra de mármore da consola onde repousa. Digno, cheio de vontade de se mostrar melhor do que qualquer estereofonia comprada numa loja de electrodomésticos de massas.
Acaricio-lhe a caixa de madeira enquanto lhe limpo a poeira que sobre ele cai dia após dia. Penso-o capaz de me contar o que já passou, de me lembrar o que a minha memória já apagou por falta de espaço.
O meu rádio serve de serra livros, faz companhia a uma velha jarra de loiça onde os cravos nunca faltam e nunca perde a sua vontade de voltar a tocar...
...músicas de um tempo que de longínquo por tudo o que já aconteceu depois dele, me parece sempre ter sido perto de hoje.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cartas


Daqui

Não me obrigues a escrever-te.
Não hoje.
Não tenho nada para te contar e tudo o que te pudesse dizer poderia parecer estranho se o dissesse por palavras escritas e inscritas num papel que em qualquer altura poderás rasgar, fazer desaparecer, queimar e transformar em cinzas que o vento, por mais fraco que sopre, poderá levar para muito longe.
Não, escrever-te deixou de fazer sentido.
Duvido até que leias qualquer uma das palavras que quase sem querer deixo escritas pelo meu caminho.
Não há sinais.
Não há comunicação.
Acabou.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Não Faz Mal Ser Diferente

Daqui

Há peixes prateados, suspensos nas árvores
Há frutos vermelhos, reflectidos em superfícies espelhadas de mares e rios
Há risos enlouquecidos daqueles que não percebem que os peixes podem nascer nos ramos de uma qualquer árvore e que os frutos se podem trincar mesmo que a sua pele nos salgue os lábios

Há homens e mulheres que se cruzam sem se ver
Há homens que se cruzam com homens e sorriem
Há mulheres que se cruzam com mulheres e se admiram

No mundo diverso
Na aceitação da diversidade

Os peixes são maçãs vermelhas que brilham ao Sol

[hoje vou à Escola do Mateus ver uma
exposição sobre a Diferença.
estas palavras surgiram-me por causa disso]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Daqui
Não ando à procura de nada.
Ando, na vida.
Em funambulismo algumas vezes. Em solo sólido outras vezes.
Não creio em seres superiores, transcendentes.
Que me guiem os passos, que me orientem os dias.
Creio em mim.
Na minha capacidade de viver.
Na minha capacidade de fazer.
Na minha capacidade de amar.
E esta fé que tenho em mim e nas minhas capacidades, move-me. Sempre.
A querer fazer mais e melhor.
A não querer fazer o que sei que não sairá feito da melhor forma.
A exigir sempre mais de mim.
É esta a minha força.
Eu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Da Dificuldade da Vida

Daqui

A manhã pareceu-lhe pesada, pareceu-lhe um enorme pedaço de chumbo cinzento que se abatia sobre a cabeça, que lhe tolhia movimentos e pensamentos.
O dia ainda nem tinha começado e a sensação de fadiga já a abatia. Não via sentido no que tinha de fazer, no que sabia que a esperava.
Passava um mês. Um mês são 30 dias. Manhãs iniciadas cedo demais pelo som de um ou mais despertadores irritantes e impacientes. Dias corridos de um lado para outro. A vida a passar. Sem que houvesse momentos de pausa para os pequenos prazeres que ainda conseguia manter apesar da dificuldade dos dias.
Tão poucos momentos.
Tantas corridas.
Tantas tarefas.
Tantas exigências.
Tantas imperfeições.
A porta do quarto aberta. Deixando adivinhar o silêncio que ainda se espalhava pela casa. E ela sem conseguir mexer-se. Sentada na beira da cama. A cabeça virada para baixo, entre os joelhos. Como se estivesse agoniada e fosse vomitar. Apenas pensando em voltar para o esconderijo que era a sua cama.
Deixar-se ficar lá dentro.
Escondida.
Quieta.
Muda.
Silenciosa.
Esperando que ninguém desse pela sua falta no silêncio da casa que não acordava sem o seu movimento, a sua labuta, os seus passos escondidos em peúgas de lã.
A porta. A porta, objecto que serve para fechar uma divisão, para a separar de outra. A porta que não queria ultrapassar, que não queria compreender aberta, estava lá. Não havia réstia de luz e o dia continuava chumbo.
Reagiu e levantou-se. O corpo a pesar mais do que os ossos conseguiam suportar, a cabeça a sentir, a pressentir o que não sabia.
A casa a acordar. As luzes eléctricas a lutarem com o céu chumbento. Os ruídos. Os passos. As vozes. A água a correr das torneiras, livre, capaz de decidir o seu rumo. A vida a retomar o ciclo de mais um dia.
Deixou-se ir.
Afastou da cabeça o que o pressentir lhe tornava mais pequeno o coração.
E cumpriu tarefas.
E horários.
E mais tarefas.
E sorriu para quem por ela esperava.
E planeou.
E correu a cumprir mais tarefas.
Até que o telefone tocou.
As palavras saíram disparadas do outro lado.
Secas.
Sem emoção.
Duras.
Atingiram-na no peito. Tiraram-lhe o ar. Feriram-na de morte. Logo a Ela. A mais forte, a mais capaz de resistir a tudo, de lutar por tudo, de seguir em frente. Fugiu daquele lugar. Saíu por outra porta. Uma porta fechada, uma barreira isolante, isoladora do exterior. Chorou. Reconheceu naquele momento o pressentir que desde manhã transportava consigo e, mais uma vez, nesse dia cinzento, quis refugiar-se no seu quarto. Naquele com uma porta não fechada, semi-aberta e convidando à saída...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Palavra Mágica


Não a saberia dizer, letra por letra. Sabia que ela existia, algures dentro de uma caixa fechada, escondida num local recôndito de si. A Palavra Mágica era uma palavra que ao ser dita transformava a face dos dias e, por esse motivo, não podia ser dita vezes repetidas, a propósito de tudo. Ou de nada. Insistir em dizê-la, retirar-lhe-ia o seu poder, a sua magia. De tempos a tempos, ousava retirá-la da sua caixinha e lembrava-se de Pandora, do risco que o mundo correria se ela ousasse abrir a sua caixa. Mulheres. O pensamento feminino, um perigo para toda a ordem. Nesses tempos em que deixava que a Palavra Mágica viesse ver a luz do dia, os dias vestiam a cor branca. Luminosos, pacíficos, inspiradores da calma que ela buscava em cada dia dos outros, daqueles em que a Palavra Mágica descansava na sua caixinha. Gostava de pensar que a caixinha estava arrumada numa gavetinha do coração, porque o coração tem cavidades e veias e artérias que percorrem todo o corpo. O local certo para a Palavra Mágica era mesmo esse, o coração. Também porque se diz que o coração é o responsável pelos sentires. Provavelmente será uma metáfora, porque o que faz o coração para além de bombar sangue de um lado para outro? Mas sim, o sangue cheio de oxigénio é o que dá ao corpo a vida, e a vida inspira os pensamentos, traz ideias ao cérebro. O cérebro, coitado, de aspecto cinzento, esponjoso e algo enrodilhado, como um esfregão velho da cozinha, como poderia ser ele o responsável pelos sentires? Não, nunca. A Palavra Mágica, a que veste de branco os dias e ilumina de cor as ideias e os sentires, tem de estar guardada algures no coração vermelhinho, pulsante e laborioso. Está de certeza lá, mas não é a mesma todos os dias. Há dias, quando o sol brilha e os pássaros cantam desenfreados do alto dos seus ninhos, lá fora no jardim, em que a Palavra Mágica nem quase precisa de sair. Basta ser pensada. Paz. É a palavra destes dias perfeitos. Nada pode correr mal quando a própria natureza está plena de felicidade. Depois, há aqueles dias em que o Sol se esconde envergonhado por detrás de nuvens esparsas no céu azul. Os pássaros recolhem ao calor do ninho ou saem a correr em busca de paragens mais sorridentes. Nesses dias, a Palavra Mágica sente que precisa de se mostrar. Sai sorrateira da sua caixinha na gaveta arrumadinha do coração e larga as suas letras. Solta-as uma por uma, para que se dispersem e encham de Sorrisos o dia, os momentos. As nuvens esparsas envergonham-se perante tanto sorriso e desaparecem, deixando que o Sol brilhe e se reflicta em lagos e mares, em vidros e pessoas. Nos dias em que outra palavra, a Tristeza, se instala e quebra as forças, a Palavra Mágica transforma-se. Usa os super-poderes que o coração lhe transmite quando a inunda de oxigénio puro e como se fosse um tornado, gira em torno de si própria com toda a força e espalha-se pelo corpo em mil e uma partículas de Energia. Ao pensar em tudo isto, realizava que a sua Palavra Mágica não era sempre a mesma palavra...e sorrindo percebia, mais uma vez, a força que cada uma das palavras da sua língua tinha em cada momento da sua vida. Isto fazia-a amar mais e mais as palavras que ia aprendendo, todos os dias. Sabia que tinha aquela caixinha dentro de si e isso tornava-a mais segura, mais confiante, acompanhada mesmo nas alturas em que não havia ninguém por perto para lhe fazer companhia. Passavam-se muitos dias sem que lhe desse uso, passavam-se outros muitos dias em que a trazia para fora todos os dias. A Palavra Mágica era a sua melhor Amiga, a sua Consciência, o seu Ser.
E essa percepção fazia-a Feliz.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Na Sombra da Buganvília, Na Beira da Água


Daqui
Quando a cabeça fervilha de ideias e o pensamento necessita ordenação urgente
Quando a energia do corpo se esgota
Quando as palavras deixam de obedecer às mãos que as querem agarrar e prender ao branco do papel ou do écran

fujo

Procuro espaços que me transmitam a paz e a harmonia que a lufa-lufa me subtrai
Desejo a companhia da água
Ouço-a sair da bica e cair
Forma bolhas que, regressando à infância, tento rebentar com o fôlego do sopro
Desenha círculos
Onde imagino surgirem as caras das fadas que vivem nas gotas de água e de luz

invejo

Os ramos fortes da buganvília
As flores coloridas e fartas
As folhas que, por acção do sopro do vento,
Se libertam dos troncos e cobrem o chão
Um tapete de côr
De vida

respiro

recomeço o meu ciclo

domingo, 14 de novembro de 2010

Chegada

Daqui
Ligas-me cedo.
Acordo estremunhada.
Ouço a tua voz ao longe, como se ainda fizesses parte do sonho que sonhava e onde não entravas.
Que vais chegar, é o que me dizes.
Duas palavras seguidas de um horário. Desligas.
A cama ainda está quente. Enrolo-me.
Há amor a ferver no meu corpo que arrefece com a proximidade de ti.
Adormeço.
Volto ao sonho onde tu não estás.
Esqueço as duas palavras que disseste, seguidas de um horário...

sábado, 13 de novembro de 2010

Aproveitem e Sejam Felizes

Daqui

Como se faz?
Dizes-me?
Aproveitar e ser Feliz.
Já me disseram que não existe felicidade mas sim momentos felizes.
Eu queria sentir felicidade.
O que me faz falta, nem eu sei dizer.
Algo escapa e ao escapar deixa-me tão vulnerável, tão só.
Aproveitar e Ser Feliz...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sem Ar

A mulher está enervada.
O início da semana é sempre complicado.
Olha o relógio, consciente do atraso. O seu e o das crianças.
Tenta não gritar com eles, afinal é segunda feira, o primeiro dia de uma nova semana de trabalho. Não gritar!, grita para o interior de si.
Parada, entre a porta da sala e a porta de saída de casa. Espera que todos estejam prontos para a seguir.
Na algibeira das calças, o som de uma mensagem a chegar.
Tira o telefone da algibeira e lê "só para te desejar um bom dia, enquanto a chuva não vem".
A mulher fica sem ar. Custa-lhe respirar. Respira a custo. Sente a ansiedade anterior a desfazer-se, ou a formar uma bola enorme no seu peito, ou a sufocá-la...não sabe.
Alguém se lembrou dela, naquele momento em que o grito estava quase a explodir!
Sorri.

Farol


"Sinto que tens tanta gente que gosta de ti."

O que mais gosto de sentir.
Quando chegas.
O cheiro do mar que te cobre a pele, o cabelo e os olhos.
O sal acumulado nas pestanas que te enfeitam o olhar.
Há nas tuas palavras o balanço das ondas agitadas da invernia,
a maresia que perfuma o ar de final de dia.
Quando chegas trazes o abraço contigo
e nele vêm as tiras de algas verdes e castanhas,
[aquelas que têm bolinhas que gosto de rebentar e ouvir estalar]
e os grãos de areia dourada que se te colam à pele.
Deixo-me ficar lá
nesse abraço que não quero que termine
nesse balanço que me segura.
Gosto que fales
baixinho, sussurrado,
que me digas as saudades
e os beijos que quiseste dar
Quando chegas,
tenho a certeza de que o tempo vai parar
e, ao longe,
do farol,
a luz vai vir iluminar
o teu corpo no meu a brilhar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Hora de Jantar

Daqui
Escureceu cedo. Cedo demais. Fiz a Marginal quatro vezes seguidas, como se fosse um vaivem espacial a fazer treinos entre a terra e a lua. Sem música. Descobri hoje que não sei conduzir sem música. O silêncio dentro do carro distrai-me e as manobras saem tortas. Nem os pensamentos fluem. O jantar está pronto. A mesa está posta. Tudo irrepreensivelmente direito e nos sítios certos. Tudo dentro da hora que todos esperam que tudo esteja pronto. Previsivelmente. A mesa. O jantar. A hora de ir dormir. Sempre. nem sempre sei como consigo, mas a verdade é que as coisas acabam por acontecer. Por bater certas. Hoje apetecia-me fazer-te uma declaração de amor. Sim, porque é de amor que se trata e de que se fala quando os anos passados a dois já não invocam paixão. Se eu te fisesse uma declaração de amor? Pegava-te pela mão e levava-te. Para um qualquer ponto da nossa Marginal. Se eu escolhesse um restaurante e te levasse a jantar? Sem te falar no preço dos pratos, do vinho ou das sobremesas (como fazes sempre, retirando ao prazer que se teve todo o prazer que se pode guardar em recordações). Seria bom. Hoje era isso que me apetecia. Dizer-te que me importo. Sentar-me em frente ao mar e comer um jantar cujo cheiro não estivesse nas minhas narinas, cujo paladar não estivesse na minha boca. Hoje apetecia-me um jantar que eu não tivesse feito. Para mim. Para ti.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sexta Feira [escura]

Daqui
Está sentado à secretária. Uma secretária irrepreensivelmente arrumada, mas carregada de diversos montes de papéis identificados. Hoje não lhe apetece mergulhar em tanto papel. Na cabeça acumulam-se preocupações, assuntos por resolver, questões pendentes. Na cabeça não precisa de colar post-its para as identificar. Apetecia-lhe ter um corrector suficientemente potente que apagasse tudo o que na sua cabeça lhe interrompe o prazer de uma vida feliz. É sexta feira. Pelo menos isso já o alegra um pouco. Isso e o facto de se aproximar uma pausa de três dias. Mentalmente planeia-os. Não lhe apetece sair e o tempo está do seu lado. Sentado de costas para uma janela, gira a cadeira e olha para a rua. O céu está cinzento e carregado, escuro como se o dia estivesse a terminar e não apenas a começar. O trânsito de entrada na cidade já está infernal. Ninguém sabe conduzir com chuva ou há carros a mais quando a chuva se lembra de aparecer? Ainda não conseguiu decifrar este mistério dos engarrafamentos associados à água que cai do céu. Em casa também tem pilhas de papéis que urgem arrumação. Os papéis. Malditos. Parecem crescer como cogumelos. E o tempo que não ajuda. O tempo que lhe escorre entre os dedos, que lhe deixa mais curtos os dias, que o impede de disfrutar do que lhe é agradável. Cada vez escurece mais. Vira de novo as costas ao caos da cidade, à chuva desalmada, aos relâmpagos e trovões. Precisa de trabalhar. Nada do que tem pendente se resolverá sozinho e enquanto a cabeça estiver ocupada com o trabalho, adormecerá as preocupações que não páram de surgir. Deita mãos ao trabalho. Lê, assina, "despacha" papéis, os montes vão diminuindo, os post-its vão deixando de fazer sentido. A escuridão, aos poucos, vai-se atenuando. O barulho da chuva parece ter diminuído e os trovões há muito que não se fazem ouvir. É sexta feira, véspera de fim de semana de três dias. Depressa estará de regresso a casa. Onde o sofá e o comando da televisão o esperam ansiosamente.

domingo, 24 de outubro de 2010

Passo a Passo...

Eu e a minha Máquina,
Penha Longa,
Outubro 2010
...vou-me afastando devagarinho, despedindo-me
um bocadinho de cada vez
para que vás sentindo a distância a aproximar-se
para que não chores
para que não sofras
Tudo...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ao Som do Rio que Corre para o Mar


Daqui
Deixa-me ouvir o rio correr lá ao fundo, lá fora.
O movimento das águas lembra-me a vida e a minha está parada.
Abre as janelas e as portadas. Tudo aberto para trás. Ai, cala-te com essa conversa do frio e das pneumonias. Que me importa a mim que entre o frio que vem da rua, da água, da montanha que começa a gelar com as geadas matinais? Esqueces-te que frio é o que vive dentro de mim? Todo o que puder chegar da rua não me arrefecerá mais. É impossível. Pronto. Assim está bem. Consigo ver os ramos despidos do castanheiro onde existia o baloiço onde gostavas de te abanar enquanto lias as lições de piano. Marcavas os ritmos do estudo com o balançar do teu corpo. Eras engraçado quando eras rapazinho. Sempre desalinhado e afogueado, atento e concentrado quando do piano se tratava. Eu sorria interiormente. Gostava de acreditar que te tinha transmitido, pelo sangue do cordão umbilical, o meu fascínio pela música e tu não me deixavas ficar mal nesta minha crença. Trocavas qualquer plano pelo piano e eu, da cozinha, escutava os teus treinos. O solfejo que nunca te assustou, os exercícios de aquecimento das mãos, as horas de prática.
Não te importas? Vai ali ligar o rádio, mas não o ponhas naquele posto barulhento que os teus Filhos adoram. A minha cabeça já não aguenta. põe naquele outro que ouvíamos quando te ia buscar à Escola. Sei que ainda existe. Oh...não faças essa cara. Está tudo bem comigo. Tenho frio mas quero manter as janelas abertas. O castanheiro já não suporta nenhum baloiço mas continua a ser a árvore mais bonita do nosso jardim. Quando vier a Primavera levas-me para baixo e lês-me Os Desastres de Sofia à sombra do castanheiro, está bem? Tu adoravas quando nos sentávamos os dois em cima da manta de quadrados vermelhos e brancos e líamos a história a meias. Eu adorava ouvir-te ler, atrapalhado com a grafia antiga da minha versão do livro que já tinha pertencido à tua Avó. É verdade, foi boa a tua Infância. Eu sempre por perto sem te abafar de mimos e cuidados, tu sempre por perto com as tuas perguntas insistentes. Cresceste mas mantiveste-te fiel ao piano e à nossa cumplicidade. Por isso estás aqui. Hoje e agora. Quando as forças me abandonam e me impedem de sózinha ir ver o rio a correr, com pressa de chegar ao mar, de me sentar na sombra do castanheiro a ler.
Fecha as janelas. E as portadas. Não, não tenho frio, não sejas teimoso. Apenas preciso de descansar. Continuas o mesmo menino das perguntas intermináveis, do génio enérgico, cansas-me. Anda, vai para baixo. Senta-te na banqueta e faz uns exercícios de solfejo. Quem sabe, se eu acordar deste sono que me começa a fechar os olhos, vou ter contigo e te corrijo a posição das mãos no piano...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Peso da Idade [Adulta]

Daqui
Ser adulto é penoso.
É-se adulto. Quando há dois dígitos indicadores da idade que limitam esse estado da vida e enquanto não se chega lá, anseia-se por chegar. Ser adulto reveste-se de uma aura de maravilhosa liberdade e independência. Ilusão total de idade não adulta. O ser adulto confere o maior estado de prisão que cada ser humano conhece ao longo da sua vida. O facto de se ser adulto condiciona uma série de comportamentos, atitudes, opiniões.

Há dias em que me aguento melhor. Tenho a cabeça mais ocupada com outras questões e consigo superar as minhas próprias questões existenciais. Há outros dias, como o que vivo hoje, em que a cabeça está focada em tentativas frustradas de explicar comportamentos e atitudes de outros. Deveria ignorar pessoas e respectivos comportamentos que me causam repulsa, mas dou por mim incomodado. De que me tenho feito adulto? Como me tenho construído nesta condição de ser crescido e responsável. Quantos são os que considero meus companheiros, meus amigos. Triste e fraca condição esta de se ser adulto. Quando era criança, jovem, tudo era mais simples. Os amigos eram amigos para toda a vida, incondicionalmente presentes, quantos mais melhor. Não existia a individualidade do eu, apenas a individualidade do grupo que se apoia. Sempre. Ser adulto é perder a ingenuidade, é perder a magia, é perder o grupo. Hoje sento-me só a uma mesa em que existem muitos outros lugares preparados. Não faço questão em ter companhia. Tenho aprendido ao longo dos anos o sentido do provérbio que nos lembra que muitas vezes não há nada melhor do que a companhia que fazemos a nós próprios. Assim estou hoje. Demasiadas cicatrizes de companhias em que apostei e que se revelaram dispensáveis. Demasiado conhecimento sobre os factores que nos tornam apetecíveis e facilmente descartáveis. As amizades, as verdadeiras, continuam a ser as do grupo. As que se aninham lá atrás na memória da infância. Essas, mesmo que distantes, constituem uma almofada à qual me posso encostar sem ter medo de não encontrar apoio.
Ser adulto é penoso.
E imensamente solitário.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Adict


Daqui

Sou viciado em paixão. Não a do corpo, mas a da alma. Preciso da energia em que a euforia se traduz. Pouco me importa a natureza do objecto da paixão. Homem mulher objecto desafio de tarefa a cumprir. Tudo me faz sentir a adrenalina a crescer dentro do meu corpo. Ocasiões há em que me sinto tentado a ficar por ali, a sedimentar sentimentos, a alimentar a paixão transitória para que se torne permanente e me agarre para sempre. A paixão é fugidia, é breve e não se deixa agarrar. Esquiva, quando me sente fraquejar, parte. Deixa-me sofredor e perdido no escuro das minhas emoções que se sentem sempre traídas por cada nova paixão que me alimenta dias e me ensombra noites de solidão. E enquanto outra paixão não se instala, vagueio. Corpo que se arrasta. Alma que sofre. No centro do corpo, um coração que brilha sempre como um farol, orientando a chegada de uma nova paixão.
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