Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Retrato

Daqui
O teu corpo
As minhas mãos no teu corpo
O meu cheiro
A tua roupa inundada do meu cheiro
O teu sabor
Eu esquecida de te saborear
O meu sorriso
Tu esquecido de me fazer sorrir
Eu&Tu
Noutro tempo talvez

sexta-feira, 25 de março de 2011

Eu [nas voltas do tempo]

Beira-Tejo

Anseio por vezes poder voltar atrás
Ao tempo em que Eu era antes de o que sou
Sem pensar no que é certo
Faria o errado
Aos olhos dos outros
Fecharia o caminho correcto
e caminharia apenas pelos caminhos que nunca descobri existirem

Pudesse eu hoje voltar para trás
Sem que o tempo retrocedesse
Apenas Eu seria diferente

Tudo se transformaria num presente diferente

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

maldição contra o amor sem corpo, para o alberto pimenta

Daqui
«teve a coragem de amar uma mulher com fino cabelo de cristal. à noite, na escuridão da cama, não lhe tocava por amor, e por amor a mulher cuidou do seu cabelo, cada vez mais frondoso e delicado, por isso, passeava o casal orgulhoso de tanta beleza pelas ruas. entravam em casa só mais tarde, quando ninguém sobrava para ver. era também quando se amavam sem se poderem suportar. cada um para seu lugar sem dizer mais nada, com a tensa proximidade da violência. sem filhos, desligavam as luzes e emudeciam. era quando alguns animais irrompiam pelos poros das paredes e lhes fungavam nos pescoços, o cabelo da mulher ondulava em cintilações no escuro, pela moléstia das pequenas cócegas e mordidas»


contabilidade
valter hugo mãe,
Editora Objectiva,
Outubro 2010


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Poema Sobre a Recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda
Maria Teresa Horta

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pequenas Moedas que Caem do Ar


Daqui
 Abrando o passo
A água que a chuva despejou sobre a terra, formou pequenas poças
Há uma árvore que se reflecte na poça
Não abandono o lugar
Mergulho o olhar na água e não vejo mais do que a superfície pejada de formas
São pequenos brilhos
Que reflectem a luz com que o Sol consegue romper o breu cerrado das nuvens
São formas redondas
E de repente, perante os meus olhos que já são de menina, surgem moedas
De chocolate coberto por papel dourado
São pequenas e grandes moedas
São os brilhos
Da água beijada pelo Sol

domingo, 31 de outubro de 2010

ETERNITY (FOR MEN), Pedro Mexia


Ela deu-me eternidade
em papel de aniversário
embora não fossem os meus anos.
Fez-me mal, agora
que o cheiro dela e o meu
já se tinham misturado.
Prenda de namorados, o símbolo
era ilusório,
e o amor acabou antes ainda
do frasco.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poesia [da Cozinha, com Paixão]]



«Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
...-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.»

Herberto Helder

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Desencontro (2), Mia Couto

Timbila,
Instrumento Tradicional de Moçambique
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidao
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculos e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Que sabes tu do eco do silêncio?, Ondjaki

Ondjaki
um só olhar
pode ser uma voz não dita.
para acumular dores
o mais das vezes
bastou um desamor.
sei: a solidão
ecoa de modo muito silencioso.
sei: muita silenciosidade
pode reciprocar
verdadeiros corpos num amor.
um só silêncio
pode ser nossa voz não dita
ainda nunca dita.
para ecoar um silêncio
bastou gritarmo-nos para cá dentro
num gritar aprofundo.
já silenciar um eco
é missão para uma toda vida:
exige repensação da própria existência.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Manhã, Mia Couto

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

I know where the summer goes

A cortina de areia invade o pátio
os elementos tingem o mar de uma cor encardida
que em rigor não lhe pertence
quando voltarmos à enseada
uma impressão contraditória
não nos larga
em cada plano, cada frase, cada pose

Somos sem saber os derradeiros
representantes de uma estirpe

Depois disso
não se morre nem se permanece vivo

José Tolentino Mendonça,
In RESUMO
a poesia em 2009,
Assírio&Alvim
FNAC

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Solidão, Nuno Júdice

Eu e a minha Máquina
Salgados, Algarve
Agosto 2009

Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Filosofia



«Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões
in Poesia, Pedro Lembrando Inês,
Publicações D. Quixote,
Fevereiro 2009

sexta-feira, 7 de maio de 2010

As palavras

 


Escuto só as tuas palavras.
Tenho o presente a partir
da minha fraqueza.
Chega até mim
quem me explica
a luz surda destes dias.
Rui Miguel Ribeiro,
in RESUMO
a poesia em 2009
edição Assírio & Alvim

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dia Mundial do Livro # [2]

NÃO MUITA VEZ

Não muita vez nos vemos, mas, se poucos
amigos há para falar
dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos
é ele o que melhor vai com a minha fome.

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move,
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.
in Poesia Completa, 1979-1994
Publicações D. Quixote
(OBRIGATÓRIO TER&LER)

Dia Mundial do Livro # [1]

AINDA ÀS VEZES

Avanço devagar, vão-se os amigos na ressaca
de cujo amor avanço assim deixando
ficar contudo aos poucos para trás, embora o mar
lhes sobre ainda às vezes do sorriso.

Procuro esses amigos. É possível
atar-lhes o horizonte entre o cabelo e acariciá-los
ainda uma vez mais. Fazer-lhes através
das mãos passar o sopro das pedreiras.
in Poesia Completa, 1979-1994,
Publicações D. Quixote
(OBRIGATÓRIO TER&LER)
Blog Widget by LinkWithin