Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lá atrás no tempo...

Daqui
...ficou uma Avó que só alguns conheceram. Precisamente seis. Seis foram os netos que guardaram nas suas memórias mais iniciais de vida a lembrança desta Avó. Seis. Precisamente seis foram os netos que nasceram após a sua partida prematura. Seis são os que a conhecem apenas por a ver sorrir numa fotografia existente na casa de cada um dos filhos. Quatro filhos. Doze netos.
Hoje passam 19 anos desde o dia em que se despediu serenamente de todos. Hoje, também, um dos Filhos comemora 53 anos de vida. Coincidência trágica de datas ou apenas coincidência?
Em cada um dos que com ela viveram e privaram deixou memórias de tranquilidade, de alegria, de sorriso, de vida. Em cada um de nós vivem as sombras da sua presença, porque nenhum de nós conseguiu ficar indiferente ao seu desaparecimento. Uns em sofrimento profundo e exterior, outros sofrendo apenas lá dentro do seu íntimo até hoje, não conseguindo resolver um luto que já conta com 19 anos de existência.
Há pessoas assim.
Cujas sombras viverão para sempre nas vidas daqueles que as amaram muito e por quem foram amadas.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vá lá...só mais este, que eu tenho mais que fazer...

Daqui
Acho que já me tinha esquecido do perigo que constituo quando me agarro ao computador  e ao maravilhoso mundo dos meus blogues preferidos! A manhã está quase passada e ainda nada se passou a não ser navegar por imagens e palavras que vão sendo largadas por muitas mãos, muitas cabeças, nas ondas da net.
Ao passar pelo meu Liceu descobri esta fotografia e não resisti a trazê-la comigo. Pelas memórias que me devolve. As noites de Verão na Feira Popular. O stand da Regina como paragem obrigatória. Umas moedas (já não me consigo lembrar de quais) e uns furos. O chocolate como presente. Aquelas barrinhas de chocolate com sabores. Ananás, Morango. Os furos. Boa lembrança.

Bronzaline

Daqui
Há coisas que permanecem gravadas na memória, por muitos anos que passem. O cheiro do Bronzaline é uma das minhas memórias mais fortes. Produto já há muito desaparecido, o bronzaline era uma espécie de graxa para espalhar no corpo em dias de praia. Nos tempos em que não eramos massacrados com informações sobre o cancro da pele, os raios ultravioleta e as horas em que devíamos estar em casa a fazer a sesta e a ler um livro e nunca na praia, esparramados ao sol. Nesses tempos de inconsciência, o protector solar também não era produto muito vendido e era frequente que cada sol-dependente inventasse o seu próprio bronzeador sem qualquer prurido em espalhar na pele óleo johnson misturado com manteiga de cacau, umas gostas de tintura de iodo, coca-cola e sei lá mais que mixórdias. Tudo servia para ficar com um belo tom castanhinho!
Na minha Família, o Bronzaline era Rei do Verão. O meu nariz que o diga. Enquanto o verão durava, a pele do meu nariz formava uma espécie de uma crosta, tal era o efeito do dito bronzeador na pele. A roupa também não escapava ilesa a este belo produto. Era normal que as t-shirts e outros adereços de praia terminassem o dia manchados de um tom alaranjado, sinal de que uma pele bronzeada à custa de muitos quilos de bronzaline tinha passado por ali.
Nós compravamos esta bomba bronzeadora numa drogaria conhecida aqui para os lados da Marginal, perto de S. João do Estoril. Ora, um produto para usar na pele, que se compra numa drogaria, é, de certeza, um produto altamente testado clinicamente.
A verdade é que não passavamos sem ele e hoje, quando vi esta fotografia do Artur, não pude deixar de pensar em como eram bons esses tempos de três meses consecutivos de praia, de manhã à noite, numa das praias da Linha mais conotada com a palavra "poluição", mas que era também a mais "in".
Saudades. Mais uma vez.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Documento Histórico (e eleitoral) no Dia do Estudante

Documento Saído de uma Gaveta...

Chegou por mail.
Com uma pequena palavra hifenizada "Lembras-te?".
E eu, cujas memórias de infância e boa parte da juventude não passam de um vocábulo - memórias -, não pude deixar de sorrir, sózinha, para esta imagem de um papel amarelado e vincado pelas dobras que o caracterizam como vindo directamente do fundo de uma gaveta onde está guardado há muito tempo.
A letra própria de uma máquina de escrever de fita.
Os nomes. Alguns deles, agora conhecidos.
Outros, ilustres desconhecidos.
O meu, sem apelido! Talvez um prenúncio da minha actividade de bloguer onde só o primeiro nome viria a lume.
Hoje, este documento histórico da minha passagem pelo Liceu D. Fílipa de Lencastre, é um contributo para a comemoração do Dia do Estudante e também um contributo para futuras promessas eleitorais do "senhor que se segue". É uma prova de que a actividade cívica sempre foi muito importante para mim (mesmo não me lembrando bem destes tempos!).
Não o vou comentar. Vou apenas deixá-lo aqui. Para que cada um de vós o analise e deixe as considerações que achar pertinentes!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Navidad

Daqui
O Natal tinha aura naquele tempo.
Um tempo longínquo, muito lá atrás no tempo, tão atrás que até parece impossível que tenha existido.
Afinal de contas os anos passam e as recordações têm tendência a ser empolgadas, como se tudo o que aconteceu fosse muitas vezes melhor do que aquilo que acontece.
Os cheiros são a memória mais forte desses dias. A lufa lufa diferente da de agora.
A importância da ida "à praça" comprar a abóbora para os sonhos.
A antecedência com que se comprava o bacalhau, retirando do exposto pequenas lascas salgadas para confirmar a cura, dando instruções ao senhor da guilhotina quanto ao corte das postas, os rabos que ninguém gostava.
A importância da compra do perú. De um tamanho considerável, mas sem esquecer a capacidade do forno. O tempero. Deixar de molho em água com limão e laranja para que a carne ficasse macia e saborosa. Fazer uma mistura de vinhos e licores para ir regando a assadura. O cheiro a espalhar-se por toda a casa, o verdadeiro cheiro do Natal.
Em casa da Avó os cheiros eram os dos fritos. Das mãos dela e completamente a olho, sem receita escrita, saíam os sonhos de abóbora, os coscorões e as fatias douradas.
Eram dias de muito trabalho que aos meus olhos eram dias mágicos. Agora que sei dar o valor ao trabalho que o Natal significa para quem o organiza, sei que eram dias estafantes apesar de em número de comensais não sermos muitos.
E afinal, o Natal dura apenas dois dias por ano. Dois dias em que todos queremos ser amigos, solidários, felizes. Dois dias para os quais trabalhamos, por vezes, um mês inteiro. Em 48 horas tudo termina. Em 48 horas a vida volta a ter o seu ritmo.
Amanhã é Natal, mas os cheiros são diferentes. Não há azevinho em jarras espalhadas pela casa, nem um alguidar enorme de barro na cozinha onde o perú amacia. Amanhã é Natal e ainda há presentes por comprar, embrulhar, e cartões por escrever.
Amanhã é Natal e não me apetece.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Primeira Casa


A minha primeira casa saltou-me ontem aos pensamentos. Não só a primeira, também a segunda. A primeira, pelas características que tinha, completamente especiais em termos arquitectónicos e afectivos. A segunda, por ter sido a única casa nova que comprámos em 22 anos de casamento.
A primeira casa era uma casa especial. A casa onde passava férias com os meus Pais e Irmãos e cujos acabamentos tinham sido todos escolhidos pelos meus Pais na altura em que a compraram. Era um último andar de uma moradia em S. João do Estoril, tectos esconsos e em alguns sítios bastante baixos, uma casa pequena mas que todos adorávamos, como se fosse o maior palácio do Mundo. Nesta casa passámos grandes férias de Verão e de Páscoa, todos os fins-de-semana. Era a casa que guardava nas suas paredes os segredos dos nossos amores adolescentes de férias de Verão, os segredos das noites em que os meus Pais não estavam (durante o Verão, ficávamos sozinhos de 2ª a 6ª) e a música dos Ramones invadia o ar, vinda de um gira discos portátil que nos acompanhava desde a infância.
Foi esta casa que comprámos aos meus Pais quando casámos. Era ponto assente que não queríamos viver noutro local que não fosse a Linha e esta foi a oportunidade de realizar o sonho. Redecorada, passou de casa de férias a casa de um casal recém-casado. Alguns dos móveis que ainda hoje nos acompanham foram os nossos primeiros móveis naquela casa, onde ocupavam imenso espaço pelas dimensões de uns e de outra, mas que lhe conferiam características que ainda hoje são as nossas características decorativas. Nesta casa tivemos a nossa primeira Filha. Desta casa saímos quando ela tinha cerca de um ano e meio, para uma outra, nova a estrear, com um encargo mensal que era o triplo da primeira, do outro lado do bairro. A nossa primeira casa, por voltas e mais voltas, acabou por continuar na Família.
A segunda casa era muito gira. Enorme em comparação com a primeira, um duplex...
A Família foi crescendo, as necessidades de espaço também e nós lá fomos andando de casa em casa. Alugando uma para fazer obras na seguinte, mudanças é conosco e nunca precisámos de empresa para encaixotar, desencaixotar, carregar móveis e transportar pesos.
Ontem deu-me a nostalgia da primeira casa. Do espaço, do que ela significou para nós, do tempo em que nela vivemos, das pessoas que existiam e que entretanto desapareceram. Acho que por muito boa que seja a casa onde hoje habitamos, nunca esquecerei como a nossa primeira casa era uma maravilha!!!!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Lista dos Ausentes # [1]

Da Net



« Os que já foram permanecem, naquilo que de essencial teve efeito em nós, vivos e na nossa companhia, enquanto nós próprios vivermos. Por vezes conseguimos até conversar melhor com eles, consultá-los e escutar o seu conselho, do que poderíamos junto daqueles que ainda vivem.»

Hermann Hesse,
Elogio da Velhice

A Lista dos Ausentes

Daqui
Li, algures, uma entrevista, de alguém, que dizia que a partir de uma determinada idade começamos a ter uma lista de ausentes das nossas vidas e que essa lista determina um pouco, também, o nosso tempo de vida.
Confronto-me diariamente com a minha lista, infelizmente já bem preenchida de nomes. Pessoas ao lado de quem cresci, pessoas que me eram queridas, das quais não consigo deixar de sentir falta.
De quem me lembro muito. Que partiu da minha vida mais cedo do que seria de esperar pela lógica da vida. E se há alturas em que sinto falta de uma fé em algo superior, esta é uma delas. Precisava tanto de acreditar que estes, [que me continuam a ser tão queridos], ausentes estão presentes num outro ponto, que continuam comigo, que não me perdem de vista. Porque quase me esqueço quem sou na loucura dos meus dias e quando me lembro, vejo uma menina a quem ainda faz imensa falta um colo, alguém que lhe empurre a bicicleta sem rodinhas para que aprenda a pedalar sózinha...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outubro


Tenho com Outubro uma relação de amor. Amor à séria, daquele que se sente sempre, mesmo que o Outono se transforme rapidamente em Inverno e deixe de me dar o solinho morno para me oferecer o cinzento molhado da chuva. Gosto de Outubro porque o associo a memórias mágicas de infância. Era em Outubro que começava a Escola, lá para o meio a caminhar para o fim. Era em Outubro que o senhor das castanhas aparecia na Guerra Junqueiro e na Praça de Londres. Com cartuchos feitos de folhas de listas telefónicas, brancas e amarelas, bem assadas, a sujar-nos as mãos de pó de carvão e cinza. Em Outubro há uma lista imensa de pessoas, familiares e amigas, a fazer anos. O meu Pai. O meu Tio/Padrinho, dois dias antes de mim. Uma das minhas primas. Um dos meus sobrinhos. Uma das minhas cunhadas. A lista é imensa e faz de Outubro um mês que se assemelha ao Natal, com muitas festas e presentes.
Depois, Outubro é aquele mês em que se vive uma certa nostalgia e eu gosto desse clima. As cores das folhas das árvores a mudar, o sol a manter-se, mas mais fraco, como se estivesse com pena de ir embora. O tempo arrefece, mas há um dourado no ar. É tempo de fazer doces, geleias e compotas. De se ligar o forno para as bolachas que perfumam a casa e nos entontecem o estômago...
Estou em contagem decrescente para o meu aniversário! Adoro fazer anos e vibro com isso como se fosse criança.
Outubro, o primeiro dia.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Os Mercados da minha Memória

Mercado de Arroios
Arquivo Fotográfico Municipal


O afonso tem andado a escrever sobre Mercados Municipais e a escrita dele tem-me feito recordar dois. Diferentes. Que frequentei em alturas diferentes. O mercado de Arroios e o mercado de Picoas.
O Mercado de Arroios é o mercado de bairro da minha infância. Grande, circular. Neste mercado passeava com a minha Avó. Era ela que lá me levava, pela mão, às bancas da sua confiança. Só nessas fazia as suas compras com o dinheiro que tirava de um porta-moedas que levava fechado na outra mão. Os verdes e legumes numa banca. A fruta noutra. O peixe noutra. As compras não eram feitas com o toma lá dá cá dos nossos dias. Havia sempre um pouco de conversa, dúvida sobre se a balança estaria certa e se aquele seria o peso correcto, algumas palavras sobre o preço marcado na tentativa de o ver reduzido na hora de pagar a conta. A minha Avó era assim. Não se ficava. Era boa a negociar. Gostava de conversar e fazia-o sempre com a confiança e segurança de quem vive na zona há muito tempo e tem alguns direitos adquiridos. Saudades dela e dos nossos dias. Em que eu trazia num cestinho alguns produtos para brincar às bonecas...

Mercado 31 de Janeiro
Arquivo Fotográfico Municipal
O Mercado de Picoas, ou Mercado 31 de Janeiro, é uma fonte de memórias já adultas.
Vizinho ao meu primeiro local de trabalho, a este mercado comecei a ir acompanhando uma então colega, agora Amiga há 22 anos. Íamos às flores. Depois, quando ela engravidou pela primeira vez, íamos à fruta. O Verão e as cerejas. Quando o bébé já comia, íamos comprar o linguado fresquinho.
Engraçado, uma memória mais recente mas menos fresca nas minhas recordações. Lembro-me que era um Mercado bonito e que tive pena quando o vi desaparecer. Um bocadinho da minha vida foi com o seu desaparecimento.

Gosto de mercados.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Bom Dia Outono

Outono na Wikipédia
Despeço-me hoje do Verão. É tempo de começar a empacotar a roupa de Verão. Guardar vestidos e calções, trazer para a primeira linha alguns agasalhos mais suaves, as calças, as mangas compridas.
O Equinócio de Outono chega às 04:03 do dia 23 de Setembro. A mudança da hora só se fará no último dia de Outubro, o que significa que ainda tenho um mês de ilusão de dias grandes.
Embora o Verão seja a minha estação de eleição, tenho que admitir que o Outono tem qualquer coisa de romântico, de nostálgico, que me atrai. O facto de ter nascido em pleno mês de Outubro talvez contribua para esta atracção. As cores de Outono são-me caras. As tradições de Outono também. Festejar o S. Martinho. Saber notícias da Feira da Golegã, onde já não vou desde criança.
O início do Outono traz-me algumas memórias boas que passam pelos cartuchos de castanhas assadas nas ruas de Lisboa, pela apanha dos figos na terra da minha Avó, pelas uvas que vinham directamente da terra para tabuleiros de esmalte nos balcões da cozinha, pelos frascos de doce de tomate, pelas tigelas de marmelada com papel vegetal por cima.
Memórias boas. Memórias feitas do que devem realmente ser feitas, afectos.

sábado, 11 de setembro de 2010

Nine Eleven, One More Year


Primeiro foi o estrondo, o embate sentido na estrutura, nos corpos.
Depois veio o fumo, a asfixia, o pânico, a fuga, a não consciência do que se passava, a consciência de que a morte tinha vindo cedo demais.
Passam hoje nove anos.
Os que partiram, partiram de um modo brutal, doloroso, descabido.
Os que ficaram, guardam memórias em formato de imagens incompreensíveis.
O Mundo asssitiu incrédulo e nunca mais foi o mesmo.
Resistimos.
Não nos tornamos mais fortes.
Apenas percebemos que o Homem pode ser a fonte do seu próprio sofrimento.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ocean Spirit

Eu e a minha Máquina,

Está quase a acontecer.
Há três anos fomos dois, na carrinha que tínhamos na altura. Ele para competir. Eu para fazer companhia. Dormimos na carrinha, com pareos a taparem as janelas.
Esta manhã, um encontro no trânsito, veio trazer a recordação dos dias de há três anos atrás.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Alcachofras


Em S. João existe um terreno enorme repleto destas belas flores, alcachofras.
Quando era miúda e passava férias grandes em S. João, a tradição era queimá-las na véspera de Stº António e desejar que no dia seguinte estivessem floridas outra vez para termos a certeza de que o rapaz em quem pensavamos, também pensava em nós!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pac-Man


Este jogo faz parte das minhas memórias. Há mais de vinte anos, no meu local de trabalho da altura, os campeonatos de Pacman eram um divertimento. Nas horas de almoço. No final do dia. Quando o Martim me disse que o Pacman fazia 30 anos e estava no Google, não resisti à tentação de ir jogar um bocadinho...e a emoção foi a mesma!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Citroen Dyane

Daqui

Dantes o meu carro não era "fashion". Não tinha sete lugares nem air bags. Os bancos eram de napa e de vez em quando aconteciam coisas estranhas como uma porta que caía em plena Avenida da Igreja, frente ao Carcassone, ou a manete das mudanças (de bengala) que saía do sítio e eu ficava espantada a olhar para ela na minha mão. Nesta época, os saudosos anos 80, eu ainda nem conduzia regularmente. Tinha medo. Não tinha confiança em mim e achava que se deixasse o carro ir abaixo e desatassem a apitar-me eu não ia ser capaz de conduzir nunca mais. O carro que nos transportava era uma Dyane. A porta do lado do pendura estava já tão velha que caía ao chão se não tínhamos cuidado. Lembro-me de uma vez, numa bicha interminável para o barco de Tróia, termos tirado as portas e termos andado a passear com elas ao colo fingindo abrir as janelas para arejar o calor que se fazia sentir. Doutra vez, a descer a Alameda demos um toque no carro da frente. Que não sofreu nem uma beliscadura. O dono fez um escarcéu. A nossa Dyane estava amolgada. Com uma pancadinha por dentro, a chapa voltou ao sítio e deixámos lá o outro senhor a gritar. Mas tínhamos um tecto de lona que se abria! Saíamos de S. Pedro do Estoril de tecto aberto, cheios de calor, e quando chegavamos ao Guincho tínhamos de o fechar senão ele voava!
Há momentos que nunca voltam e que raramente lembramos. Até que, de repente, vem um fotógrafo e tira uma fotografia destas. A memória desata a rebobinar informação e as palavras acontecem!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Há Bocado...

Daqui

...ia falar de Felicidade e não falei.
Mas porque não falar da felicidade?
Conceito. Palavra. Estado. Sentimento.
De que é feita?
Como se inscreve no ser de cada um de nós?
Que outro conceito, palavra, estado ou sentimento, a fazem rebentar, sair de nós?
Hoje senti-a.
Nasceu em mim pela razão mais banal.
E permaneceu.
E durante momentos sei que fui realmente feliz...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quando Eu Era Miúda


Quando eu era miúda tinha dois pares de Avós. Um par muito diferente do outro, mas Avós.
E uma irmã. E depois um irmão.
Com a minha Irmã, eu brincava aos hospitais. Punhamos as bonecvas todas deitadas nas nossas camas, iguais, brancas com cabeceiras lacadas a laranja. As cadernetas de cromos eram a papeleta de cada doente. Eram radiografias e análises que interpretávamos com imensa atenção. Tínhamos seringas sem agulhas, luvas cirúrgicas e máscaras esterilizadas a sério. Equipávamo-nos a rigor e brincávamos. No nosso quarto compartilhado de irmãs. A nossa casa era quente. Um andar cimeiro de um prédio antigo de Lisboa. O nosso quarto tinha uma janela de parapeito com um estore verde que se puxava para fora em dias de muito calor, para fazer sombra e arejar o quarto.
No quarto ao lado tínhamos um piano que fingíamos saber tocar e matraqueávamos teclas durante brincadeiras inteiras.
Quando eu era miúda não havia televisão durante todo o dia, nem Internet, nem jogos electrónicos, nem telemóveis e eu e a minha Irmã brincávamos. Tínhamos dois telefones em casa. Sabe-se lá porquê...divertíamo-nos a ligar de um para o outro, atazanando a paciência da sra que lá trabalhava em casa.
Nas casas dos Avós brincávamos.
Uma das casas, andar mais cimeiro do que o nosso num prédio mais recente que o nosso, tinha um terraço enorme. Com uma vista soberba. De onde víamos o Areeiro à direita e quase o Martim Moniz à esquerda, o Cristo Rei também se via, e nós adorávamos brincar ali. Andávamos de patins, cantávamos e fazíamos espectáculos musicais inspirados no Festival da Eurovisão. Com esta Avó ouvíamos o Simplesmente Maria na rádio e íamos à modista. Escolhiam-se feitios em figurinos. Tiravam-se medidas. Íamos às lojas de tecidos e depois às retrosarias. Compravam-se tecidos, forros, fechos e botões, colchetes e molas. Era um mundo de acessórios coloridos armazenados em caixas de cartão, com exemplares do que guardavam cozidos por fora. De casa desta modista trazíamos sacos cheios de ameixas brancas e vermelhas que cresciam em árvores que tinha no quintal das traseiras. Dionísia. Era o nome dela.
Na outra casa, num primeiro andar de um prédio antigo de um outro bairro tradicional de Lisboa, brincávamos na casa de jantar. Com mobílias de brincar que pareciam mobílias a sério feitas em ponto pequeno. Debaixo da mesa, que tinha uma campainha que se premia com o pé para chamar a empregada, com quem não tínhamos autorização de passar muito tempo na cozinha. Jogávamos dominó e ao burro em pé. Quando o Verão chegava, os Avós faziam duas pequenas malas de xadrez vermelho e íamos para o Estoril. No Estoril brincávamos na rua, andávamos de bicicleta, íamos à praia durante a manhã e vínhamos para casa almoçar e fazer a sesta. A sesta era uma imposição destes Avós. Obrigatória e sempre motivo de beicinho. Encomendávamos bolos na Ribeiro, na Parede e bebíamos chá em tardes de receber visitas.
Quando eu era miúda, a Primavera chegava com dias ensolarados que nos enchiam as casas de uma luz e de um cheiro inesquecível.
Em Lisboa...

sexta-feira, 19 de março de 2010

In Memoriam

Foi a Belita quem me enviou esta tira. Precisamente há uma semana, por mail.
Nestas pequenas coisas também se identificam as amizades. Os que sabem as causas pelas quais lutámos e continuamos a lutar, embora, por vezes, com menos espalhafato, por vezes, apenas interiormente e nas nossas pequenas acções e intervenções do dia a dia.
Acredito que muitos dos nossos jovens e jovens adultos não têm presente a hecatombe que foi o holocausto durante o tempo da Alemanha Nazi. Esta é uma das coisas que deve fazer parte da cultura geral de cada um. Não apenas porque se tratou de uma época decisiva na vida mundial do séc.XX, mas porque, principalmente, constitui um exemplo de intolerância levada ao limite.
Constitui uma Memória que não devemos nunca esquecer para que nunca caiamos na tentação de a repetir.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tia Loja


Esta imagem levou-me a mim quando era pequena. À minha infância onde houve uma aldeia. Era uma aldeia bem pequenina, daquelas que têm um nome estranho e cuja localização no mapa não era muito preceptível num tempo em que auto-estradas eram coisa nunca vista e o GPS uma maquineta própria do "Espaço 1999". Nesta aldeia havia carroças e motoretas. Os que tinham carro eram os que tinham vindo para a cidade e estavam "bem" na vida. Havia um grupo de ciganos que todos os Verões se instalava numa casa de pedra que é agora pertença de familiares meus. Havia a romaria de grupos de homens e mulheres contratados sazonalmente para a apanha dos figos, do tomate e das uvas. Não havia água canalizada mas havia uma fonte onde se ia buscar água, com jarros ou vasilhas de barro transportadas à cabeça num equilíbrio perfeito assente em rodilhas feitas de bocados de trapos (sogras). Havia pessoas capazes de "deitar o mau olhado" e outras que faziam umas rezas com água e azeite para desfazer o dito. Na minha memória são felizes os dias nesta aldeia. Onde não existiam mini-mercados. O pão era amassado e cozido nas casas que tinham forno ou então vendido pelo padeiro que vinha numa carrinha que parava no centro da aldeia, buzinando para avisar da sua chegada. Tal como o senhor do peixe. Não havia ASAE e as carrinhas eram vulgares. Ovos, galinhas, coelhos e outras carnes eram produto de criação individual/familiar. Na minha família havia uma loja. A parte de baixo de uma casa desabitada. Um espaço enorme, amplo, escuro e fresco nas tardes de Verão que ali passavamos a brincar. Era uma loja mista onde se acumulavam amendoins, tremoços, pevides, rebuçados, leguminosas em grandes tulhas de madeira com medidas também de madeira, gasosas e laranjadas, bolachas de baunilha vendidas em pacotinhos individuais. Não havia máquina de café, mas havia enormes pipas de vinho e copos de três que os homens engoliam como se bebessem copos de água. E nós, meninos da cidade onde as lojas eram distintas consoante o género que vendiam, deslumbravamo-nos na loja da Tia Teresa (a "Tia Loja"). Em mesas de madeira já muito gastas e bancos de furo no meio do tampo. E brincavamos às casinhas, às mães e filhos, às lojas. Na rua principal daquela aldeia os dias eram quentes mas enormes. Eram dias cheios de brincadeira e de tempo de sesta durante as horas de maior calor. Eram dias que terminavam em espreguiçadeiras na rua a olhar as estrelas que transformavam o escuro do céu num manto de luzes prateadas. Hoje tive saudade da aldeia, da loja, das tardes, das noites e das pessoas que existiram comigo nesse tempo.
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