Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.
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sábado, 17 de dezembro de 2011


Daqui

Há dias mágicos...

O dia de Inverno em que acordamos com o Sol a fazer riscas de sombras nas paredes do quarto e a aquecer os pés da cama.
O dia de Verão em que o calor nos acorda cedinho e nos chama para a vida, irresistível na sua energia e alegria.
O dia em que acordamos depois de uma noite bem dormida e de um sonho que nos pôs com um sorriso nos lábios e um calor no coração.

Hoje é um dia mágico sem que nada disto tenha acontecido.
As letras comovem-me sempre, as leituras muito mais e quando tudo isto se alia às emoções, então há, de certeza, magia na maneira como olho o dia.
Uma colega desta "profissão" recente vê hoje o produto do seu trabalho nas bancas - Velocidade Colher - e eu não consigo desligar este acontecimento importante na vida dela, do meu sentir.
Trabalhar num projecto como é O livro, é trabalhar na obtenção de um resultado que, não é à toa, se diz ser idêntico ao de ter um filho. É uma coisa que nasce, mas uma coisa onde tudo transpira o ser de quem nele trabalhou. Ao folhear o livro da Gasparzinha não me senti a folhear apenas mais um livro de culinária. Senti-me a fazer parte do mundo dela, porque é isso que um livro deve transmitir, bocadinhos de quem o criou, e o livro dela traz logo isso no início, a dedicatória.
Hoje, o dia é mágico para ela. E este post é para ela.
A fotografia escolhida, do meu fotógrafo/blogger preferido. Uma fotografia que me faz sonhar com cartas de amor. As cartas que gostaria de ter atadas com uma fita vermelha dentro de uma gaveta perfumada com o cheiro intenso de sabonetes de outras eras.
Hoje, o dia é mágico porque me fez vir aqui e, ao chegar, encontrar 12 comentários para publicar. Cheios de saudades, de ternura e de pedidos de regresso. E as lágrimas a virem-me aos olhos, porque, às vezes, o virtual consegue ser tão mais forte que o real.
Hoje, o dia é mágico. Por vocês.
Obrigada!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Aos poucos, também vou lendo...

Quase não tenho escrito.
Quase não tenho lido.
O que não quer dizer que viva à margem do que vai acontecendo no mundo que gosto de dominar - o das artes, da escrita principalmente.
A minha pilha de "por ler" aumenta consideravelmente e ainda bem que as estantes estão quase prontas, porque estou com uma vontade imensa de os ver bem alinhados e organizados. À partida vou arrumá-los por autor. Acho chique!
Apesar de ainda não ter luz de mesa de cabeceira ou uma luz que me permita ler sem a luz do tecto a ofuscar-me os olhos, o meu novo quarto tem sido tão inspirador de uma bela leitura antes de dormir!!!! Em cima da mesa de cabeceira estão três livros. Dois que aguardam mais concentração e disponibilidade (pelo nº de páginas que ostentam) e este cuja capa aqui publico e que tem sido o meu companheiro. Desde que li o primeiro livro de Michael Cunningham, fiquei apaixonada pelas suas palavras e pontuações. Não me escapou mais nenhum dos seus livros e nenhum deles me desapontou. O homem escreve mesmo bem e lê-lo é um prazer sem medida.
Agora, por exemplo, está a dar-me uma vontade de louca de subir as escadas, deitar-me em cima da colcha fofinha, castanho escura, parecida com chocolate, recebida de presente no Natal e desatar a ler...impossível!
Tenho de ir buscar o Mateus às 15:30. Tenho demonstração às 17:00.
Fica para logo à noite.
Depois de ver o Irmãos&Irmãs na RTP 2.
Os meus guilty pleasures mantêm-se inalterados!!!!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Prazer em Estado mais do que Puro, Puríssimo

Livraria Galileu, Cascais
O final de tarde de segunda feira passou a incluir uma deslocação a Cascais.
O que lá vou fazer não me compensa ir, voltar a casa e regressar a Cascais, por isso decidi enfiar o carro no estacionamento subterrâneo (onde se paga com a Via Verde, o que é um must) e deambular por ali. Não tinha nenhum destino em mente e, por isso, saí do estacionamento e pus-me a andar pela Avenida Valbom. Claro que Avenida Valbom quer dizer Santini, mas também quer dizer Galileu e foi para lá que dirigi os meus passos e o meu olhar claramente atraído pelas bancadas de livros usados que estão sempre ali à porta, à mão de semear, a atrair atenções que acabam sempre por se dividir com o interior da loja.
Eu adoro livros, sejam eles novos a estrear ou antigos ao ponto da grafia ser diferente e as folhas amareladas quase se desfazerem entre os dedos quando as passamos. Durante um bocado estive ali, absorta nos usados, entretida a recordar a colecção RTP que faz parte do meu imaginário infantil, perdida nuns pequeninos volumes de libretos de óperas conhecidas. Depois o frio começou a incomodar-me. Empurrei a porta fechada/encostada e entrei. Lá dentro, o silêncio. Não era um silêncio pesado, era um silêncio próprio de qualquer local sagrado, de um espaço onde se reflecte. Na Galileu não se veêm livros como num qualquer outro espaço livreiro da modernidade. Prateleiras enormes, organizadas por estilo literário, estantes enormes, organizadas por autor, barulho, muita luz, música e muita gente, muitas vozes, muito som de fundo. Na Galileu existe um ambiente quase de museu. Os livros estão ali expostos, ao nosso dispôr, mas de um modo intimista, apetecível. Eu não procurava nada em particular, tal e qual como não procuro nada quando entro na FNAC e saio de lá com qualquer coisa debaixo do braço. Mentalmente decidi não gastar dinheiro, portanto só estava ali para passar o tempo e ver capas, ler sinopses, pouco mais do que isso...mas acabei por me encostar a um pequenino escaparate onde os títulos eram anunciados a partir de €1 até €5. Títulos da Cavalo de Ferro. Não gastar dinheiro! Mensagem que surgia projectada no écran do meu cérebro, mas para a qual esse mesmo cérebro não queria olhar. Despertada a atenção para os títulos, as lombadas, as histórias ali à minha frente, já nada havia a fazer. O cérebro  pragmático iria perder a batalha. Assessorada pela anfitriã daquele maravilhoso espaço, lá fui eu fazendo uma pilha. Dois volumes mais grossos, os outros finos e tentadores, foram-se transformando em propriedade minha e só eu sei como ser proprietária de livros me transforma numa pessoa verdadeiramente feliz.
Saí da Galileu carregada com um saco amarelo cheio de livros a preços inferiores ao de qualquer jornal diário. Se por vezes gastar dinheiro me instala na consciência um peso que dificilmente suporto, ontem aqueles euros ali deixados instalaram um contentamento imenso em mim.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Déjà Lu

Daqui
Déjà Lu é uma página de leilões de livros já lidos.

Poderíamos chamar-lhes livros em segunda mão, mas estaríamos a quebrar toda a mística que envolve um volume que em tempos fez companhia a alguém.
O valor das vendas resultante dos leilões reverterá, na sua totalidade e de forma directa, para a APPT21 e para o Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças.
Todas as semanas serão publicados lotes de livros, que podem ser licitados individualmente, a partir de um valor base.
As licitações devem ser feitas na caixa de comentários do blogue, sendo usado o registo da data e hora do comentário para identificar o vencedor do leilão.

Os potenciais compradores deverão indicar:
- item pretendido
- valor de licitação
- e.mail para contacto no final do leilão


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sindicato da Bondade, Eduardo Sá

[...]
«Uma família serve para nos sentirmos acompanhados por dentro, adivinhados quando nos sentimos misteriosos e arrebatadores (sempre que estamos sonolentos). E ensina-nos que perdoar é esquecer sem dar por isso. Eu acho que, para tantas coisas, uma família, para ser família, tem de ser numerosa. E só se for assim será sagrada. Nas famílias de verdade cabe a educadora que nos contava histórias e a professora que nos ralhava, sempre que mordíamos a língua para pensar. E o senhor da padaria, que nos sorria, de manhã, como muitos dos nossos tios nunca o fizeram. E o Augusto dos jornais, que mal falava mas que, por nada que se esperasse, se comovia enquanto ria. E a D. Isaura, dos bordados, que fazia de conta que não percebia quando estávamos a mentir. E o Pai Natal e Deus, sempre que ficávamos, noite fora, à calhandrice com eles (mais vezes do que conversávamos com os nossos amigos). E os amigos, claro, para além de todos aqueles que sentimos serem nossos. Uma família é uma barafunda. E só se for assim é paz. E é amiga de verdade, sem a qual se é desfeliz. E puxa os sentimentos, de supetão, do fundo da alma para a superfície da pele. E desabotoa a fantasia. E é dedicada com o colo. E afeiçoa-se ao brincar. E à esperança, é claro. E a tudo o que mais que quem fala dos valores da família nunca nos diz. Na verdade, a ideia de família tem sido tão enxovalhada que já não sei se gosto dela. Do que gostava - mesmo! - é que a família fosse, simplesmente, um sindicato da bondade. Mas não sei se conseguirei explicar porquê, mas acho que, só se for assim, será família. E será feliz.»
Sindicato da Bondade,
Eduardo Sá,
salamandra,
Outubro 2010

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Partilha [Completamente] Fútil

Saldos.
Palavra mágica para uma grande parte da população mundial. A época mágica que se inicia cada vez mais cedo e que me faz pensar nas grandes somas que as lojas mais presentes em Centros Comerciais arrecadam quando não estão com os preços reduzidos. Vender a 50% do preço marcado é, com certeza, vender e ainda ganhar dinheiro, certo?
Já tenho dito por aqui que centros comerciais não são o meu destino preferido e que a gastar dinheiro o faço sempre, em primeiro lugar, em livros.
Foi pelos livros que comecei hoje. Depois de uma reunião na CMC que me deixou empolgadíssima para trabalhar na (minha) preparação para falar num seminário para que fui convidada, segui viagem em direcção ao Cascaishopping. Tinha umas coisas para trocar, dois livros para comprar (leituras para a escola), enfim...fui dar um giro, sair da rotina.
Mergulhei de cabeça na FNAC. Sem uma lista de "eu quero" escrita ou na cabeça, fui passeando pelos expositores. Procurei o livro do Martim e uma agenda de 2011 (que ele pediu para "se organizar") e depois fui-me deixando viajar entre capas e páginas. O resultado foi volumoso.
Deixo para trás a FNAC e entro no reino feminino, trapos. Curiosa a minha falta de vontade para comprar esta ou aquela peça de roupa. As calças de ganga (embora por vezes me farte delas) continuam a ser a melhor peça de vestuário alguma vez inventada pelos homens e eu, mulher, agradeço-lhes! No entanto, enfiada naquele universo de etiquetas  com os preços reduzidos a metade, acabei por me deixar tentar por outros tecidos e outros formatos.
Regressei a casa com algumas coisas novas. A sensação é boa!

domingo, 26 de dezembro de 2010


Eu e a Minha Máquina
Jantar de Dia de Natal
Neste Natal não recebi um único livro.
Também não recebi um swatch.
Neste Natal recebi um vestido de cerimónia, preto, comprido, para usar daqui a duas semanas.
Neste Natal, uma das minhas sobrinhas falou-me dum livro de poesia. O nome do livro não me é estranho...tenho de investigar. Aconselhei outra sobrinha a comprar o Livro antes de regressar a França, onde vive e trabalha já há uns anos. [uma espécie de Prof. Marcelo em edição familiar...].
Recebi um acessório de porta chaves fantástico - uma miniatura de máquina fotográfica Diana F+. Do meu Mano fotógrafo. Estive a ver trabalhos dele. Fiquei curiosa relativamente a um livro de Herberto Helder cujas palavras ele utilizou. Tenho de ir pesquisar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Propósito de Inverno, [mas este é dos bons]

Os fins de semana são o ponto alto da actividade à qual me dedico há umas semanas. São a altura em que mulheres e maridos estão em casa, em que há mais tempo disponível.
No próximo sábado terei de me organizar para estar livre às 18:00. Já que não posso hibernar durante os meses de chuva e frio e sou obrigada, pela minha fraca condição humana a viver (e de preferência, feliz), então que encontre motivos de alegria.
Este é um motivo de alegria. O João Tordo vai estar aqui bem perto, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana. Para falar sobre O Bom Inverno que viu a luz dos escaparates em pleno Agosto, quente.
Eu sou absolutamente fã da escrita do João Tordo e, por esse motivo, rendo-me à beleza escondida do Inverno e lá estarei, com todo os títulos deste autor, prontos a receber um autógrafo.
Se alguém me quiser acompanhar...é só dizer!

domingo, 7 de novembro de 2010

Livro [Não Apenas Mais Um...]

Chegou no dia do meu aniversário e tem estado, pacientemente, à espera da sua vez para me fazer companhia. Durante a semana andou dentro da mochila, mas apenas para que eu me sentisse acompanhada porque o tempo não sobrou para que o pudesse ler.
A minha campainha interior. Acordou-me, dizendo que o sol brilhava lá fora e era tempo de dar início a um novo dia, mas eu estava cansada. Não tinha ainda vontade de me levantar. Deixei que o meu braço saísse debaixo do edredon e procurasse o Livro.
De uma assentada li 70 páginas cobertas de palavras muito bem escritas. Tão bem escritas que me fazem sentir cheiros, conhecer as pessoas ali descritas, ver claramente todos os locais descritos. Estou apaixonada por este Livro.

sábado, 23 de outubro de 2010

A Força das Coisas, Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir
« Faz-se muitas vezes da literatura uma ideia mais romântica. Mas ela impõe-me esta disciplina precisamente por ser algo diferente de um trabalho: uma paixão ou, digamos, uma mania. Ao acordar, uma ansiedade ou um apetite obriga-me a pegar imediatamente na caneta; só obedeço a uma ordem abstracta nos períodos sombrios em que duvido de tudo: aí a ordem pode mesmo ser quebrada. A não ser em viagem, ou quando se passam acontecimentos extraordinários, um dia em que não escreva tem um gosto a cinzas

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Bernardo Soares, Páginas do Livro do Desassossego

Bernardo Soares
«Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim, as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.»

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Memórias do Futuro, Daniel Sampaio

Daqui


«Então chorei. Desejei que te transformasses numa ausência, que o teu nome fosse uma recordação em breve esquecida. Ansiei que as minhas palavras te deixassem só para sempre. Senti-me despido, abandonado nas trevas de uma noite de Inverno.»

sábado, 9 de outubro de 2010

Calvino, Palomar [ou como um Livro me salvou da pasmaceira]

Estou sentada à espera que uma qualquer ideia me atravesse o pensamento e me espicace, me ponha a escrever. Já coloquei imagens e reitirei-as logo de seguida. Já escrevi palavras que apaguei. Nenhuma delas me estava a fazer grande sentido. Levanto-me direita aos livros. Quando tenho estes acessos de não saber o que escrever e me dirijo aos meus livros, sei que não sou eu que os escolho mas eles que me escolhem a mim. Estranha esta minha mania de dar vontade própria aos livros, mas sinceramente acredito que os meus livros são capazes de me chamar a atenção quando preciso deles. [Ontem vi na televisão uma mulher que tem uma atracção sexual por objectos, chegando ao ponto de se "casar" com a Torre Eifell.] Umas das frases que tinha alinhavado tinham por sujeito o mar. Desisto de tentar. Tenho a cabeça demasiado cansada para conseguir escrever alguma coisa de jeito. Tenho mesmo de me socorrer dos meus livros. Com o indicador da mão direita, sigo as lombadas. Tiro um José Luís Peixoto. Leio algumas páginas avulsas. Enfio-o no seu lugar. Opto por um Italo Calvino. Abro-o e leio que me foi oferecido pelo meu irmão, no dia do meu aniversário, há 10 anos. [Cá dentro encontro também uma folha com um desenho infantil de um bolo de aniversário. Não está assinado. Não sei quem foi o autor. Desconfio das mãos da Catarina.] Não me lembro de ter lido este livro. Dez anos enfiado dentro de uma estante...
«A crista da onda que avança levanta-se num ponto determinado, mais do que nos outros, e é ali que começa a franjar-se de branco. Se isso acontece a uma certa distância da costa, a espuma tem tempo de se enrolar sobre si própria e de desaparecer de novo, como que engolida, para no mesmo momento tornar a envolver tudo, mas desta vez despontando de baixo, como um tapete branco que trepa pela praia acima para acolher a onda que está para chegar. Mas, quando se espera que a onda role sobre o tapete, verifica-se que já não há onda, mas somente o tapete, e mesmo este desaparece rapidamente, tornando-se uma cintilação de areia molhada que se retira veloz, como se fosse empurrada pela areia enxuta e opaca que faz avançar o seu limite ondulado
É o mar que me escolhe, nas palavras do senhor Palomar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Setembro 2005 versus Setembro 2010



Índia,
Album Fotográfico
 
Poucas coisas me alertam para a passagem do tempo.
Aos meus olhos, quando me cruzo com eles no espelho, vejo-me sempre igual. Igual às memórias que os meus olhos guardaram de mim. Impossível. A cada dia que passa, um milímetro de pele muda, um milímetro de ruga nasce, um milímetro de mim envelhece.
Arrumei o livro terminado. Pousei os olhos nas prateleiras. Mudei de prateleiras. Da esquerda da sala para a direita. De duas pilhas de não lidos, para alinhamentos arrumados, buscando os títulos que sei não ter lido mas que estão lá. Tiro um. Setembro de 2005 (todos os meus livros têm o meu nome, a data de compra/oferta, o nome de quem ofereceu, na primeira página). Cinco anos? Fico parada. Passaram cinco anos desde o dia em que comprei este livro. cinco anos são muitos anos. Muitos milímetros mudados. Por fora e por dentro.
Por qualquer razão não li este livro após o ter comprado. Acontece-me amiúde. Resultado da paixão. Olho-os e tenho de tê-los. Trago-os e vou-os juntando. Uma zona de conforto onde poderei sempre refugiar-me. A certeza de que tenho sempre páginas não lidas onde me descobrir, onde aprender.

Setembro 2005/Setembro 2010.
Um sinal de que deve ser este o meu próximo companheiro, a minha próxima leitura.

Análise de Leitura [sem presunções de crítica literária!]

João Tordo
Terminei ontem, ao serão, a leitura d'O Bom Inverno (descubram a razão do nome deste romance aqui). João Tordo é um dos meus escritores preferidos e de cada vez que inicio a leitura de um dos seus romances, faço-o de mente completamente aberta, como se entrasse numa casa que me é querida e onde sei que vou sempre sentir-me confortável.
Nesta história achei particularmente interessante o envolvimento do escritor dentro da sua própria história. Como se ao mesmo tempo que escreve e constrói ambientes, enredos e personagens, estivesse a analisar-se a si mesmo na sua profissão de escritor.
Nas últimas páginas, a intensidade do que nos é descrito é tão forte. Sente-se que aquelas últimas páginas exigiram do escritor uma enorme dose de energia, que o devem ter deixado exausto. Enquanto lia pensava que é preciso ser-se muito bom para se chegar a um resultado destes.
Com a leitura deste livro, reconfirmo as razões da minha preferência pelo autor. É bom. Ponto Final.
[Não sei em que livro pegar agora...]

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quando Não Sei o Que Escrever, Transcrevo

«Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto e a direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?»
« Todos temos enigmas por decifrar», repliquei. «No entanto, nem todos lemos ficção. E somos ainda menos os que escrevemos.»
«Justamente», respondeu Nina. « Porque pessoas diferentes encontram as respostas em lugares diferentes. Algumas pessoas encontram-nas na própria vida; talvez eu faça parte desse grupo. Para outras, as respostas só surgem quando se difarçam de outra coisa qualquer, de uma pessoa que não são. Quando se metem no lugar de uma personagem e depois a fazem passar por agruras, que é aquilo que acontece nos romances.»
«Ao mesmo tempo, é uma forma de cobardia», respondi. «Deixar que os outros vivam as coisas por nós. mesmo que os outros sejam invenção nossa.»
«Pois é», respondeu Nina, sorrindo. «Os escritores, no fundo, são todos uns grandes cobardes e mentirosos. Às vezes, raramente, são muito corajosos. Mas, geralmente, são só cobardes e mentirosos.»
Págª 35

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Finita


Não raramente pressinto a finitude. Das minhas palavras. Da minha capacidade de escrever para além do banal, do que é esperado que escreva alguém sobre cuja vida já tantas palavras se inscreveram no espaço m branco de um écran.
Quando estas pausas vêm e, teimosamente, se instalam em mim, há muito pouco a fazer. A meditação, a observação, a leitura e consulta de palavras de outros podem ser o elixir que acaba por pôr um ponto final à incapacidade momentânea de escrever, mas nem sempre possíveis.
Abençoadas estantes e livros. Arrumados, empilhados, espartilhados uns contra os outros. Nem sempre sei a qual recorrer e deixo que o instinto me guie as mãos no momento de os fazer sair por breves minutos do espaço onde repousam.
Depois, é abrir completamente ao acaso.
"Finita", de Maria Gabriela Lansol, foi o livro que saíu hoje para me socorrer, para me inspirar, para me ensinar algo mais sobre a arte da escrita que não é menos digna quando assume a forma de um Diário.

«Sento-me num tronco nos limites da clareira, fechando os meus olhos fitos no seu centro, deixando que tudo corra, mesmo na sua imobilidade. E dou-me conta de que corre uma aragem pelas árvores da clareira, tal como um murmúrio, que me suscita a palavra murmuragem. A murmuragem das copas das árvores, como digo a murmuragem que sou. E dou assim por finda a cinestesia.»

E assim descubro quatro linhas, de escrita, maravilhosas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Refúgio [de Segurança]

Livraria ''Le Bal des Ardents''

Da infância recordo dias de nariz enfiado nos livros de capa azul da Condessa de Ségur.
Da juventude recordo dias de leitura, de corpo enfiado em grande sofá de cabedal, de orelhas, devorando frases e frases de todos os autores disponíveis pelas estantes de casa.
Da idade adulta, e do período em que todos os dias eram dias de transportes públicos entre S. Pedro do Estoril e Picoas ou Marquês de Pombal, não recordo cenas de comboio ou de metro. Não me perdia na observação dos meus companheiros de viagem, porque havia sempre um livro na mão. Muitas páginas acompanhavam duas ou três viagens. Poucas páginas apenas duravam um trajecto. Há poucos dias uma Amiga queixou-se de não conseguir ler no comboio da linha de Cascais. Segundo ela, e em comparação com os comboios da linha de Sintra, o "nosso" comboio abana imenso. Não a pude contradizer, pela simples razão de que não conheço o outro termo de comparação. A mim, nunca me custou ler na linha de Cascais, em movimento.
Agora, que os dias são passados em casa, os momentos de leitura diminuíram. Drasticamente. Para conseguir ler algumas páginas, obrigo-me a sair de casa, ao final do dia, um pouco antes do toque de saída da última criança. São 15/20 minutos de leitura diária. Notoriamente, pouco. Principalmente para quem tem sempre pilhas de livros para ler e não consegue fugir à compulsão da compra de mais um sempre que algum lançamento lhe aguça o apetite.
A leitura é um prazer, mas é também um esconderijo. Do mundo. Pegar num livro, abri-lo, cheirá-lo e deixar-me levar por ele. Durante o tempo em que o livro me acompanha, as suas personagens, o seu mundo, é o meu. Escondo-me do meu mundo real? Não, apenas me refugio e viajo. E aprendo. E cresço. Como leitora. Como escrevinhadora. Como pessoa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Juventude Prolongada por Deformação Profissional

[...]
«E isso podia significar ou desespero de isolamento ou juventude prolongada por deformação profissional. Isso: juventude prolongada por deformação profissional. Já tinha reparado, efectivamente, que os professores não são bem homens. Lidando com jovens, dissolvem a personalidade, ficam uma geleia de jovens e de adultos. Só mais tarde vi que também o artista marra, esforçadamente, para a juventude. Estará a arte virada para a frente e a velhice para trás. Enfim, hoje penso que Sérgio brincava às idades. E que, se se mantinha jovem, era, ao contrário do que dizia, pelo desejo danado de conservar justiça à sua luta da juventude.»
[...]

Promessa,
Vergílio Ferreira,
2010. Quetzal Editores
págª 52

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Quinta Feira, Quase de Férias

I.
Estou Mãe de filho único. O último.
Estranho. Como diz um desenho animado, primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Tem sido bom não os ter todos à pega uns com os outros, cada um a stressar com a sua coisa, cada um a pedir a sua atenção.
Faço tudo mais devagar e com mais calma.
Já devia estar na praia e ainda não estou. Mas vou.
Ele já devia estar arranjado e ainda está a ver desenhos animados.
Who cares?
Estamos quase de férias (ele está de férias!) e está demasiado calor para stressar.
II.
Quando conduzo de manhã pela Marginal até Cascais gosto de sentir o cheiro do mar e de o ver tão perto. Também gosto de apostar comigo própria que vou cruzar-me com alguém conhecido ou ir atrás ou à frente de alguém conhecido. Ontem ganhei a aposta. Hoje também.
III.
Sei que a maré está vazia e que vamos ter muito espaço quando chegarmos à praia, mas não tanto como tínhamos ontem no Guincho. Sózinha com o mais pequeno não me apetece ir para "tão" longe. Vamos para a praia perto de casa.
IV.
Tal como tenho crises de escrita, também as tenho de leitura.
Há uma pilha de livros para ler. Nenhum me atrai especialmente. Há uma lista de livros a comprar antes de rumar a sul. Espero conseguir! Fui à estante do sótão e tirei O Idiota. Enquanto não me decido, ando pela Rússia.
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