Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Companheiras de Quarta Feira [Comungar]


Daqui
Nesta mesa de jardim encontram-se uma vez por semana. No meio da semana. A quarta feira em que dão folga a si próprias. Esquecem compromissos familiares e domésticos. Comportam-se como se voltassem à adolescência da liberdade, dos não compromissos, da escapadela ao Liceu, da omissão de como tinha sido o dia. Ela primeiro. Ela depois. Chegam por entradas distintas do jardim. Uma vem de perto, Lisboa é a sua casa. Outra vem de mais longe, dos arredores ensolarados onde o mar é vizinho, companheiro e confessor. A que chega primeiro. Irrepreensivelmente vestida, penteada, maquilhada. Pousa a mala na cadeira do seu lado direito. Abre-a. Tira os óculos e um livro. Geralmente um livro fininho. Poesia ou ensaio. Senta-se. Respira fundo, olha em redor, como se absorvesse cada pormenor de uma paisagem que já deve saber de cor, mas na qual descobre um novo elemento todos os dias. Põe os óculos. Inicia a leitura. Lê devagar. Absorve cada palavra lida, pensa-a, estuda-a, procura a origem. Volta não volta sublinha frases, toma notas de lado. A que chega depois. Estudadamente despenteada. Afogueada da corrida que caracteriza o seu passo. Devagar é palavra para a qual ainda não descobriu o significado. Passa a vida a correr e se não correr, não vive. Roupa prática, sapatos práticos, telemóvel na algibeira das calças, moleskine pequeno noutra algibeira, carteira enfiada num outro qualquer bolso do blusão. Sorri. A primeira admira-lhe o sorriso. Quase o inveja por ser tão espontâneo, tão característico. Passa a semana inteira presa à energia que este sorriso semanal lhe devolve. A segunda senta-se. De imediato inicia um qualquer tema de conversa. Tem sempre assunto, tem sempre vontade de contar seja o que fôr, mesmo que à partida pareça pouco interessante. Nada, nas suas palavras é pouco interessante. O empregado vem recolher o pedido. Não precisava de o fazer. Desde que as duas fixaram a quarta feira como o dia da fuga, o jardim é sempre o mesmo, o pedido é sempre o mesmo. Um chá preto. Duas chávenas. Por vezes dois queques, por vezes nada mais além do chá. A conversa flui. A segunda fala dos alunos que tem este ano. Admira-os. Empenhados, trabalhadores e conscientes de que têm de dar tudo por tudo. Conta peripécias de sala de aula, fofoquices de sala de professores. Imita este e aquele. Falas e trejeitos. A primeira ri. Observa-a com carinho, desejosa de absorver tanta energia positiva, tanta vontade de seguir em frente, sempre. A primeira fala do seu projecto de escrita que avança mais devagar do que gostaria. Está presa num detalhe da história, não o consegue ultrapassar, não sabe que rumo há-de dar a uma das personagens. E depois o marido e os filhos que não lhe dão tréguas. Há sempre tanto para organizar, para assegurar, para manter. Sente-se pronta a desistir. Ataca-a a segunda. Que nem pense nessa hipótese. O projecto de escrita é o teu projecto. E a primeira sente-se confortada, sabe que ali, às quartas feiras, há alguém sempre pronto a ouvi-la, a estimular-lhe os sentidos que tantas vezes andam adormecidos. Estica o braço por cima da mesa. Toca na mão da segunda, devagar, a medo que ela não gosta de toques. O contacto físico nem sempre lhe é agradável. Obrigada por teres inventado ser minha amiga, mesmo que só às quartas-feiras. Foge a mão da segunda, mas não lhe fogem os olhos. O castanho que, de um lado da mesa, se fixa no verde do outro lado da mesa. O despenteado, louco, falador, intempestivo, que se reflecte no aprumado, sensato, calmo, silencioso. Duas faces que se miram como se se mirassem num espelho que lhes devolve a imagem do que gostariam de ser. A primeira, a segunda; a segunda, a primeira. Comungam gostos, dias. Tudo o resto as distingue, as afasta, as empurra para caminhos opostos. Fazem da quarta-feira, do chá, da mesa de jardim e da vista do miradouro o ponto que as une e no qual se sentem confortáveis. Por horas. Comungam. E gostam de estar ali.

3 comentários:

Mar disse...

Este post lembra-me eu. :-)
Gosto do que se escreve por aqui.

Carlota disse...

Tão bonito. Continua.

Luísa disse...

Obrigada, Vera, por dar tanta cor (e calor) a essa fotografia. :-)

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