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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Calçada Portuguesa


Daqui

Um dia vou estudar a origem da calçada portuguesa e as razões pela qual fazem dela um dos cartões de visita de Portugal e, principalmente, de Lisboa. Até esse dia chegar, vou pensando, optimisticamente (não sei até que ponto é correcto este termo), que a calçada portuguesa vai ser sempre o nosso cartão de visita.
Gosto de olhar para os passeios e observar as pedras, os cubos que se encostam uns aos outros, encaixados em piso de areia. Não gosto de olhar para as pedras a saltarem do seu alinhamento, a provocarem a quebra dos saltos altos, a dificuldade em circular com carrinhos de bébés ou cadeiras de rodas. Gosto de olhar para os passeios e descobrir os desenhos que as pedras pretas formam no meio das brancas, revelando verdadeiros artistas naqueles que, de joelhos no chão e martelo na mão, foram abrindo espaços na areia e foram encaixando pedras. Não gosto de ouvir dizer que se está a pensar substituir toda a nossa bela calçada portuguesa por pedras rectangulares, lisinhas e bem assentes, superfícies quase perfeitas, deliciosas para skaters, inofensivas para os saltos altos. Gosto de assomar a uma das janelas do Tivoli e ver a avenida que se estende até aos Restauradores, até ao Marquês, feita de calçada, branca e preta, ladeada por árvores maravilhosamente vestidas dos tons de cada estação, salpicando o branco da calçada das cores de cada uma delas. Gosto de pensar na Feira do Livro, instalada no Parque sobranceiro à Avenida, também ela feita da memória de muitos de nós que, procurando o cheiro das palavras que nos embalam as ideias, caminhamos sobre as pedras polidas por tantos passos que por elas foram passando.
Gosto de olhar para esta fotografia do
imagino-me sentada num dos bancos da Avenida
talvez apenas olhando
talvez apenas observando
atentamente
quem por mim passa sem me olhar
pisando pedras de história
afastando com a biqueira dos sapatos
as folhas que vestem o chão
de Outono

Se a nossa calçada morrer, morre uma parte considerável do nosso ADN de cidade cheia de cultura e tradição e isso não constitui uma mais valia para quem passou, para quem passa, mas, principalmente, para quem passará a andar pelos passeios portugueses.

5 comentários:

Luísa disse...

Vera, tanto quanto pude aprofundar, a calçada portuguesa nasceu quando se tratou de pavimentar o Rossio, no século XIX. A área era grande, a empreitada adivinhava-se caríssima, e o governador do Castelo, que tinha então a seu cargo a custódia dos condenados a trabalhos forçados, presos na antiga Alcáçova, propôs que se empregassem esses homens na tarefa, utilizando o método seguido na entrada do Castelo, que tinha sido coberta com um mosaico de pequenas pedras talhadas em calcário e basalto, brancas e negras. A iniciativa teve tanto sucesso, que o resultado é o que se vê. Também gosto da calçada portuguesa, mas reconheço que é um perigo para pessoas com problemas de mobilidade. Só a ajudar uma dessas pessoas, já dei – ou demos, eu e ela – alguns valentes tombos. E eu ando sempre de ténis, «à cause des mouches»… ;-)))

André disse...

Boa noite!

descobrindo os teus textos e gostando muito deles. As calçadas portuguesas são quase uma marca registrada de Portugal, são bastante originais e inconfundíveis. Quiçá uma herança da cultura árabe, que utiliza muito os mosaicos. Parabéns pelo texto. E pela idéia.

Saudações.

Vera disse...

Luísa, obrigada pela tua sabedoria :-) compreendo o problema da mobilidade e o dos "tombos", mas continuo a achar que se devia apostar numa melhor manutenção duma tradição que é nossa em vez de se apostar na sua substituição...beijos

André, obrigada pelas palavras simpáticas. obrigada pela visita e pelo comentário e aceite o convite para ir ficando por cá.
Um beijo

Carlota disse...

Vera.
Também acho a calçada portuguesa muito bonita, mas infelizmente muito pouco prática para tem que andar (muito) a pé.
Deveria ser mantida nas zonas históricas.
Aconselho-te vivamente a fazer a pé (já nem sugiro levar sapatos altos) o percurso de minha casa até à estação de São Pedro do Estoril. Depois diz-me o que achas.....

Diário de Lisboa disse...

hoje(ontem) fui eu que te pedi emprestadas uma palavras...
bjs

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