Grafia

A Autora deste Blogue optou por manter na sua escrita a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O Solista # [1]

Conheci-o através deste blogue e por isso agradeço ao dono da casa que mo apresentou.

Um livro caracteristicamente escrito por um jornalista. No entanto, foi também esta característica que me agradou. A escrita jornalística é uma escrita despida de adjectivos, nua e crua. É uma escrita que se molda bem à realidade descrita.

A crueza e a nudez de viver na rua. A crueza do dia a dia. A nudez de afectos. Este livro chama-nos a atenção para como é fácil fazer algo por alguém. E como a preocupação de melhorar a vida de alguém nos pode dar felicidade. Dentro das nossas vidas ocupadas até ao mais ínfimo segundo, cronometradas e aceleradas, é tão fácil encaixarmos a vertente da solidariedade. E depois, é tão fácil mantê-la. Cola-se-nos à pele e incita-nos a mais e melhor. Nunca é fácil o trabalho social. Ou por ser demasiado duro e por as nossas emoções não conseguirem ficar fechadas atrás de uma porta, ou porque os obstáculos que encontramos quando queremos fazer bem são imensos, ou porque a(s) pessoa(s) que queremos ajudar não aceitam essa ajuda ou se tornam completamente dependentes dela.


O Solista tem ainda o peso de tocar um assunto extremamente complicado - o da saúde mental. Até que ponto estamos (sociedade e comunidade) preparados para lidar com a diferença que caracteriza os doentes mentais? Até que ponto saberemos lidar com o real e a fantasia que habitam nas cabeças destas pessoas?

São muitas questões num livro que, enganadoramente, até pode ser tomado como sendo de fácil leitura. Se o lermos sem pensarmos que tudo o que ali está descrito, é produto da observação da realidade e não apenas uma ficção criada por uma cabeça pensadora e umas mãos "iluminadas".

A ler. A pensar...e a agir para mudar!

1 comentário:

Brunorix disse...

Sim. Steve Lopez é um jornalista e, sobretudo, um cronista. Este livro que tem por base as crónicas que ele foi escrevendo sobre Nathaniel (que podem ser lidas aqui: http://www.latimes.com/news/local/la-me-lopez-skidrow-nathaniel-series,0,1456093.special), não deixa de ser uma crónica de muitas páginas. É um romance factual e por isso a linguagem está com a “frieza” certa.

A música é um elo redentor entre os seres humanos e todos os acontecimentos relatados têm por base esse poder universal. É impressionante a capacidade que alguma pessoas têm para dar sem receber (cada vez mais raro nos nossos dias), só pelo prazer de ajudar alguém. Essa é para mim uma das mensagens mais positivas do livro.

É chocante perceber que somos seres verdadeiramente frágeis e que estamos sujeitos a todo o tipo de realidades incontornáveis. Seria bom fechar este livro e não voltar a pensar em doenças mentais e em pessoas que vivem nas ruas, mas a verdade é que depois desta leitura Nathaniel Ayers continuará a ser um doente mental e isso nunca vai ser alterado. No entanto, também é bom saber que muita coisa pode ser feita e muito se pode minorar e até melhorar.

Também achei interessante a crítica implícita a uma sociedade americana, supostamente, sem máculas, mas onde afinal se notam muitas falhas no sistema de saúde e no apoio social. Embora não seja essa a tónica principal do livro, não deixa de ser um grito na escuridão e a mensagem está lá.

Por fim, a minha profunda admiração pelo autor que embora não previsse tudo o que se viria a passar depois do seu primeiro encontro com Nathaniel (crónicas, livro e filme), teve o grande mérito de ter dado um passo determinante na direcção de alguém. E isso, é algo que muito poucas pessoas fazem.

Aguardo ansiosamente pelo filme!

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